Limeira/SP - Ano 1, nº 01

Televisão: Imagens e Mensagens de todo tipo
e para todos os públicos
                       
por Milena de Castro
                                                                                                                          
Jornalista e professora de Comunicação Social do Isca Faculdades 

Desde que os primeiros aparelhos de TV começaram a ocupar, no final dos anos 30, "o espaço nobre" nas salas de visita das residências norte-americanas, esse veículo de comunicação dirigido indiscriminadamente a populações inteiras vem, de forma progressiva, causando mudanças profundas na cultura, na economia, na política e na sociedade como um todo.

Cada vez mais, boa parte do que reconhecemos como os "modos de vida" e "de trabalho" na sociedade acaba impregnada da dinâmica televisiva na produção de mensagens, como reflexo e resposta aos anseios sociais tanto reais quanto imaginários. E aqui prefiro dizer dinâmica televisiva, mais do que dinâmica das mídias em geral, porque a supremacia da TV sobre os demais veículos de comunicação é pura realidade, pelo menos até o momento.
No Brasil, para citar um exemplo, a televisão responde por 90% dos hábitos diários de consumo de mídia, segundo amostragem realizada, em 2001, pela Latin Panel, com 6 mil domicílios das classes A/B, C e D/E de todo o País. Isso, apesar de a transição para uma nova realidade tecnológica, social e econômica exigir que a televisão enfrente, hoje em dia, o desafio de meios concorrentes, que lançam mão de novidades tecnológicas para oferecer alternativas de entretenimento e informação - está comprovado o sucesso da internet, entre outras mídias, em atrair parcelas de tradicionais telespectadores, mas essa boa performance não é, nem será num futuro previsível, comparável à da televisão, uma vez que permanece ainda excluída do rol de usuários da web a grande maioria da população.

No entanto, durante essas décadas todas em que conquistou e influenciou o gosto da audiência mundial, a TV carregou consigo o estigma da banalização da cultura. Não sem razão: de fato, a televisão adotou para si uma lógica comercial que resultou numa programação de baixo nível em boa parte das emissoras, com a importação de produtos enlatados e exploração de imagens e temáticas com zero de informação e entretenimento de mau gosto .
Foi apenas na breve fase anterior à generalização e à popularização da TV, conhecida como "The Golden Age of Television", mais ou menos entre 1947 e 1960, que o veículo conseguiu ser encarado com a devida seriedade por parte do conjunto dos críticos e espectadores - o público mais sofisticado inclusive ia com freqüência aos cafés para ver televisão! Como reflexo dessa credibilidade do veículo, na década de 50 a revista francesa Cahiers du Cinéma, então dirigida por André Bazin (um dos primeiros entusiastas da televisão), trazia o subtítulo Revue du Cinéma et du Télécinéma.

Nos dias de hoje, o máximo que se credita à TV é que ela permite o acesso do público leigo a alguns conteúdos legitimamente interessantes do ponto de vista cultural, como se isso fosse de menor importância. Mas não se leva em conta que o alcance da televisão é tão grande, que a sua menor audiência supera de longe a de qualquer outro meio. Na TV, o produto mais sofisticado deixa de ser elitista, porque encontra sempre um enorme número de espectadores.

Tendo isso em vista, importa começar a olhar a TV em seu conjunto (como qualquer outro meio de comunicação, ela admite conteúdos com menor, mas também com maior grau de qualidade) e aposentar a conclusão taxativa e simplista de que todo produto televisual é um lixo. Está na hora de valorizar as iniciativas (várias, por sinal!) de canais espalhados pelo mundo e também no Brasil. Afora as emissoras universitárias e ditas educativas (TVs USP, PUC, SENAC e Futura, entre outras), que abordam de maneira inteligente e criativa conteúdos mais sofisticados, vale lembrar os muitos programas da MTV e mesmo as minisséries produzidas em pleno seio da grande indústria cultural televisiva brasileira, que é a Rede Globo).

As minisséries A Casa das Sete Mulheres (texto de Maria Adelaide Amaral e Walter Negrão e direção de Jayme Monjardim) e Um Só Coração (texto de Maria Adelaide Amaral e direção de Carlos Araújo) são boas demonstrações de que o público tem prazer, sim, em assistir a bons programas. Mesmo indo ao ar tarde da noite, na Rede Globo, A Casa das Sete Mulheres (cujo pano de fundo a Guerra dos Farrapos, nos pampas gaúchos, no século XIX) conseguiu uma audiência robusta - perto de 30 pontos de média no Ibope só na Grande São Paulo, em janeiro de 2003 - como resultado da produção criteriosa tanto na captação e edição das imagens quanto em termos de roteirização, direção e interpretação dos atores. O mesmo ocorreu com Um Só Coração, superprodução que mistura personagens reais e fictícios, ambientados na reviravolta cultural e política na cidade de São Paulo, a partir da década de 1920. Com o objetivo de homenagear os 450 anos da capital paulista, o programa estreou em 6 de janeiro desse ano, com a boa audiência de 35 pontos no Ibope.

Mesmo que se tome como verdadeira a tradicional afirmação de que a TV parece menos preocupada com o apuro da visão e o requinte do olhar, e mais interessada em proporcionar acesso imediato a qualquer que seja o tipo de imagem, por que não admitir esse procedimento característico do veículo como o grande justificador da sua existência? Por que não reconhecer a televisão como, mais do que tudo, um espaço comum e plural, inserido numa realidade coletiva e festiva, independentemente de conteúdo? Por que, enfim, não encarar a televisão como um veículo com potencial para a circulação de idéias tão diversas quanto distinto é o conjunto de telespectadores, o que, por sua vez, poderá se revelar na esteira da multiplicação dos seus canais?
Ao que tudo indica, a TV continuará sendo o veículo de comunicação mais popular no mundo todo. Assim, vale encará-la com seus limites, mas sobretudo valorizar aquilo que ela nos apresenta de interessante.

Bibliografia          

GUNNING, Tom. Cinema e história: fotografias animadas, contos do esquecido futuro do cinema. In: XAVIER, I. (org.). O Cinema do Século. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
HOINEFF, Nelson. A Nova Televisão: desmassificação e o impasse das grandes redes. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.
MACHADO, Arlindo. A Televisão levada a Sério. São Paulo: Senac, 2000.

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