Limeira/SP - Ano 3, nº 11

Imprensa alternativa: jornalismo
de oposição e a revista Bundas"

por Maria Gabriela Praxedes
Nilson Zanchetta

Tiago Valentim
*


Introdução        


"Quem coloca a bunda em Caras, não coloca a cara em Bundas"
ZIRALDO


Após o golpe de 1964, o Brasil passou a vivenciar um dos mais tenebrosos regimes autoritários da história e uma das áreas mais atingidas pelo autoritarismo instalado no país foram os veículos de comunicação. Foi sob a censura que se expandiu o chamado jornalismo alternativo. Jornalistas, intelectuais e políticos da oposição se juntavam para criticar o abuso de poder dos militares.

O primeiro jornal com este caráter foi o Pif-Paf, criado por Millôr Fernandes em maio de 64. Depois surgiram Folha da Semana, de Arthur Poener; Bondinho, de Sérgio de Souza; O Sol, fundado por Reynaldo Jardim; e O Pasquim, do célebre Jaguar, entre muitos outros.

Durante a década de 70 esses jornais eram conhecidos como "imprensa nanica", termo que, segundo Bernardo Kucinski (1998, p. 178) devia-se ao seu formato pequeno, tablóide. Mas Sérgio Caparelli questiona o termo: "Como chamar nanico o Pasquim (...) que chegou a tiragens de 100 mil exemplares?" (1980, p. 42).

A palavra "alternativa" foi usada no Brasil por Alberto Dines, na sua coluna semanal do jornal Folha de São Paulo. O termo já era usado nos Estados Unidos e Inglaterra para designar arte e cultura não convencionais.

Segundo Caparelli, "alternativo" é o termo mais apropriado para o gênero porque "(...) indica uma relação com outro, um alter que chama a si os que se desviam de um caminho inicial, no caso, a imprensa tradicional". (1980, p. 44).

Foi exatamente assim que surgiram diversos jornais oposicionistas ao governo, com o descontentamento dos profissionais de comunicação com a grande mídia, que se deixava manipular pelo poder. Em resposta a um questionário aplicado em 1979 (CAPARELLI, 1980, p. 44), o jornal Opinião explica que o objetivo do veículo é comentar acontecimentos sócio-econômicos e políticos do país, que os jornais consagrados não comentam, ou, quando o fazem, obedecem à ideologia dominante.

Numa pesquisa realizada no mesmo ano, Jaguar, fundador do O Pasquim (maior jornal alternativo da época) afirma que o principal motivo do jornal ter sido criado é porque assim seriam donos de seus próprios narizes, ou melhor, das matérias, sem ter que dar satisfação aos patrões.

A imprensa alternativa tinha como principais objetivos criticar o modelo econômico e político dos governos, combater político-ideologicamente a ditadura, lutar por mudanças estruturais, criticar o capitalismo e o imperialismo e criar um espaço público alternativo, virtual, afetivo e contra-hegemônico.

Segundo Bernardo Kucinski (1998), os jornais oposicionistas eram divididos em duas classes: alguns predominantemente políticos e de outro lado, jornalistas cansados do discurso ideológico. A primeira classe era formada por jornais como Politika, Opinião, Movimento, Em Tempo e Coojornal. "(...) tinham raízes nos ideais de valorização do nacional e do popular dos anos 50, ou no marxismo vulgarizado nos meios estudantis nos anos 60. Em geral pedagógicos e dogmáticos (...)". (1998, p.180).

Estes jornais foram os únicos da imprensa a perceber os perigos do crescente endividamento externo e revelaram novos personagens, como os bóias-frias, por exemplo.

Já o segundo grupo era formado pelos jornais Versus, Bondinho, Ex e O Pasquim. Eles se inspiravam nos movimentos de contracultura norte-americana, no orientalismo, anarquismo, existencialismo, eram contra o autoritarismo e a moral da burguesia e aderiam às drogas.

Com 15 anos de ditadura militar, surgiram aproximadamente 160 periódicos de vários tipos - satíricos políticos, feministas, ecológicos e culturais. Mas a maioria não conseguia passar de duas ou três edições e fechava as portas. "Ainda assim, foram quase todos embriões de futuras equipes que tiveram grande importância no jornalismo". (KUCINSKI, 1998, p. 192).

Poderíamos classificar o período de circulação dos principais jornais alternativos em quatro fases. A primeira foi quando o objetivo era revolucionar o país. Depois que a censura começou a persegui-los, reformularam a linguagem e a forma de criticar, resistindo ao poder. No final dos anos 70, com a abertura política, as redações dos jornais alternativos foram deixando a clandestinidade e ganhando o espaço público. Na fase final os jornais se voltavam aos movimentos populares de base.

Em meados de 1974 a imprensa alternativa passou a viver um conflito interno (KUCINSKI, 1998, p. 184). Ela lutava pela democracia, mas alguns jornais se tornaram frentes de partidos políticos, seguindo duas concepções: a Gramsciana e a Leninista. Na primeira, os jornalistas se inspiraram na obra de Gramsci, de 1968, intitulada de "Os intelectuais e a organização da cultura", fazendo dos jornais entidades autônomas com o propósito de contribuir para a formação de uma consciência crítica nacional. Dentre suas características estavam: montar um conselho editorial; ampliar a base de sustentação dos jornais; identificá-los com correntes expressivas de opinião e receber dinheiro e matérias escritas por jornalistas que continuavam trabalhando na imprensa convencional e por artistas que organizavam shows para conseguir recursos.

Já os Leninistas (KUCINSKI, 1998, p. 190) se tornaram frentes constitutivas e comitês partidários, onde cada participante tentava controlar o jornal, além de usar o poder para obter benefícios.

O apogeu da imprensa alternativa foi entre 1975 e 1977. Havia oito jornais de grande circulação. Eram O Pasquim, Opinião, Movimento, Versus, Coojornal, Ex, De Fato e Repórter. Abaixo o quadro explicativo com as datas de fundação dos primeiros jornais.

 

1969
1971
1972
1975
1976
1977
Pasquim Pato Macho Opinião De Fato
Versus
Movimento
Coojornal
Posição
Paralelo
Informação
Repórter
Em Tempo


Dos jornais citados acima, apenas O Pasquim e Repórter foram capazes de vender regularmente mais do que a tiragem mínima de distribuição nacional, o que proporcionou uma vida mais longa que os demais, pois as vendas cobriam os gastos.

Os jornais tinham aversão ao capitalismo. "Seus protagonistas opunham-se não só ao regime militar, mas ao próprio capitalismo, que rejeitavam a partir de uma perspectiva moral. Movia-os um espírito anticapitalista". (KUCINSKI, 1998, p. 187).

Toda acumulação era vista como um roubo, mas não conseguiam criar processos de acumulação e nem se importavam com os problemas financeiros e administrativos. O Coojornal, do Rio Grande do Sul, foi à única cooperativa importante de jornalistas a explorar a fundo e de forma consciente o ideal cooperativo. O Pasquim, quando estava no seu auge, vendendo mais de 100 mil exemplares, teve a oportunidade de comprar as gráficas do Grupo Feitler, do Rio de Janeiro, mas Jaguar recusou porque ficou assustado com a hipótese de se tornar patrão.

 



As características dos principais jornais       

 

Pasquim

Foi um dos jornais alternativos mais importantes do Brasil. Com raízes no nacional-popular, criou o cult do underground norte-americano.



Mudou hábitos e valores, empolgando jovens e adolescentes dos anos 70 (...).
O jornal, essencialmente humorístico, também transformou as linguagens do jornalismo e da
publicidade, e até a linguagem coloquial. Criou os neologismos "duca", "sifu", entre outros,
e abriu caminho para o uso da linguagem coloquial e de palavrões no jornalismo. (KUCINSKI, 1998, p. 181)


Raimundo Rodrigues Pereira (in: FESTA E SILVA, 1986, p. 62) conta a trajetória do tablóide que foi perdendo sua força com o fim da ditadura militar:



(...) O Pasquim, que foi um sucesso extraordinário nos primeiros anos, 1969-1970, quando chegou a atingir 200 mil exemplares semanais. Após o período de repressão mais dura caiu para 80 mil exemplares em 1980; e no início deste ano estava em 17 mil exemplares, e com dificuldades para fechar, em virtude de dívidas e penhores aparentemente insanáveis.

 

Bondinho e Ex


O primeiro de Sérgio de Souza e o segundo foram fundados pela equipe da revista Realidade. Foi formulado seguindo o corrente do "new journalism" dos anos 60, que contava com Gay Talese, Truman Capote e Norman Mailer. Eles criaram uma nova forma de narrativa jornalística com ambições literárias e a valorização da reportagem baseada na vivência dos fatos e situações.



A linhagem do pessoal do Bondinho, Ex, etc., mais preocupada com os temas
culturais e do comportamento, é quem batiza a imprensa de alternativa; exatamente porque
era essa corrente a mais preocupada com os aspectos formais da imprensa popular - a democracia
na redação, a linguagem, a forma, a temática. (PEREIRA, in: FESTA E SILVA, 1986, p.62)..



Versus


O jornal de Marcos Faerman, que fez parte da equipe da revista Bundas, priorizou a estética, misturando todas as formas de linguagens - fotos, quadrinhos, texto - além de reproduzir reportagens de Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti e Gabriel García Márquez, que escreviam sobre ditadura na América Latina para o jornal do Uruguai Marcha.




O desaparecimento dos alternativos       

 

Segundo Kucinski (2003, p. 117), a partir da década de 80 a imprensa que mais ganhou espaço durante o regime militar, a alternativa, foi declinando até desaparecer. Muitos foram os motivos que levaram os jornais a fechar as portas. Para o autor (1998, p. 193), o decreto de anistia esvaziou a imprensa alternativa porque os políticos e ex-políticos não precisavam mais de nenhum veículo, pois os partidos passaram a ser legalizados e com isso puderam se manifestar, saindo da clandestinidade.

Os únicos tablóides que permaneceram em atividade foram O Pasquim, Resistência e o Em Tempo, isso porque deixaram de agir de forma alternativa (KUCINSKI, 2003, p. 117). O Pasquim, por exemplo, foi vendido a um capitalista; Resistência passou a sobreviver com apenas três edições em cinco anos através do apoio direto de um partido político e o Em Tempo virou porta-voz de um grupo democrata socialista. Ainda no final da década de 70 outros jornais alternativos tentaram sobreviver, mas fracassaram.

Do ponto de vista econômico, a falta de opção na distribuição dos jornais também contribuiu para a sua queda. As comissões cobradas pelos distribuidores eram de valor muito alto, o que comprometeu a existência desses veículos. "As comissões chegavam a 45% do preço de capa com o pagamento sendo feito após três semanas da distribuição". (KUCINSKI, 2003, p. 118)



Nos casos do Em Tempo e Movimento, que precisavam imprimir pelo menos vinte mil exemplares,
a tiragem mínima para cobertura nacional, para vender menos de dez mil, o que ocorria era
queima de dinheiro. (...) os veículos alternativos portadores de projetos nacionais insistiam
numa circulação nacional, a mais ampla possível, como parte de sua proposta de visibilidade
pública e ampliação política, e para isso pagavam um preço alto. (KUCINSKI, 2003, p. 119).



O jornal O Pasquim vendia, no final da década de 70, 84 mil exemplares por semana, mas tinha apenas dois mil assinantes (KUCINSKI, 2003, p. 119). Ou seja, viver de assinaturas era algo impossível para se manter em atividade.

Além da legalização dos partidos e a deficiência econômica, outro motivo que fortaleceu o declínio da imprensa alternativa foram os atentados à bomba contra jornais e bancas de revista (KUCINSKI, 2003, p. 119). Os atentados eram uma ação que visava afrontar a imprensa alternativa num momento delicado da política de abertura, com a participação de alguns setores do governo. Os jornaleiros passaram a recusar a venda de alternativos.



O Coojornal, em 79, havia publicado um documento secreto do Centro de Informações do
Exército, segundo o qual a imprensa alternativa existia para contestar o regime. Logo depois
começaram os atentados às bancas que vendiam jornais alternativos. Ao longo desses anos, algumas
publicações tiveram edições inteiras apreendidas, tornando inviável a
continuidade econômica do projeto. (FESTA, 1986, p. 17).

 


Durante uma solenidade de transmissão de comando, o general Heitor Furtado Arnizaut de Mattos acusou publicamente a imprensa alternativa de dar muita proteção aos subversivos (KUCINSKI, 2003, p. 119). Com isso, o Centro de Investigações do Exército preparou um dossiê que lançava as bases para uma ampla ação fiscal e administrativa contra os jornais, propondo devassas contábeis e cobranças de débitos previdenciários.

A grande imprensa, que também sofreu com os ataques às bancas, uniu-se à imprensa alternativa para que, juntas, fossem capazes de dar uma resposta eficaz aos atentados. A Editora Abril, por exemplo, distribuiu uma carta intitulada "Não se curve diante dos terroristas", pedindo aos jornaleiros que não temessem, além de organizar atos públicos.



Mas o que decidiu a batalha contra o terrorismo foi o erro dos próprios terroristas: a explosão,
antes do tempo programado, da bomba do Rio Centro, em 30 de abril de 1981. Ali acabou
a campanha terrorista. Foi um momento também de grande afinidade editorial e operacional entre
grande imprensa e o que ainda restava de imprensa alternativa. (KUCINSKI, 2003, p. 120).

 

Depois dos atentados a situação ficou ainda mais insustentável para os jornais alternativos que não mantinham ligação com projetos político-partidários, pois não havia a alternativa da venda militante. "Sofreram mais ainda com as apreensões de algumas edições inteiras. Esse foi o caso do Repórter, que além disso teve suas vendas em banca diminuídas à metade, de 70 para 35 mil exemplares". (KUCINSKI, 2003, p. 121).



Repórter efetivamente desapareceu devido à impossibilidade de recuperar essas perdas
apenas com as edições carnavalescas de caráter pornográfico, que vendiam mais de cem mil exemplares.
Coojornal, um dos alternativos a contar com a receita de publicidade, sofreu prejuízos graves com
a pressão dos militares gaúchos contra os seus anunciantes (...). Mas foi basicamente devido a decisões
estratégicas erradas (o lançamento do semanário O RIO GRANDE) e dissenções internas
crescentes, inclusive políticas, que o Coojornal deixou de existir. (KUCINSKI, 2003, p. 121).



Uma solução encontrada pela imprensa alternativa, no final dos anos 70, foi se institucionalizar, ou seja, o jornalista recebe para defender posições políticas e programáticas da empresa que o emprega (KUCINSKI, 2003, p. 121).




Especialmente com a tomada dos sindicatos pelas forças de esquerda a partir das
greves de 1978 e 1979 no ABC, e com a consolidação de entidades representativas dos
movimentos populares, como a Comissão Pastoral da Terra. (KUCINSKI, 2003, p. 121)



Na década de 80, multiplicam-se os órgãos de sindicatos e partidos políticos e jornais de movimentos populares apoiados materialmente pela Igreja Católica, CUT e outras entidades da sociedade civil. "Mas não se reproduz a articulação que definia imprensa alternativa, apenas subsistem alguns de seus elementos, e numa forma mais simples: os jornais são veículos de defesa de interesses". (KUCISNKI, 2003, p.121).

Em 1978 a imprensa sindical deixa de ser um jornal encomendado pela diretoria para ser uma comunicação para as classes trabalhadoras. "O fim da ditadura foi desagregador para os jornais de frentes comandadas por partidos de esquerda. A imprensa alternativa não era substituta da imprensa clandestina dos partidos, que de forma precária sobreviveu sob a ditadura" (KUCINSKI, 2003, p.123). A partir daí os partidos se organizam abertamente, abandonando de vez a imprensa alternativa e lançando seus próprios jornais. Estava selado o fim dos alternativos portadores de projetos nacionais.

Segundo Kucinski (2003, p. 123, 124 e 125), a partir de 1978 são lançados os jornais partidários, produzidos por muitos dos quadros da antiga imprensa alternativa, como O Trabalho e o Convergência Socialista. Em 1979 surgem os diários O Companheiro e o Causa Operária. Em 1980 chega o Voz da Unidade e O Povão. Em 1982, fruto do PT, surge o Jornal dos Trabalhadores. Em 1984, São Paulo Hoje e A Esquerda. Em 1985 aparece O Amanhã e finalmente em 1986 o Rumo ao Socialismo.

Para Kucinski, a imprensa alternativa perde o monopólio do jornalismo para a grande mídia, que adota parte da linguagem alternativa, porém operando com mais recursos e eficácia, como foram os casos da revista Isto É e do Projeto Folha. "O Jornal do Brasil e a Folha de S. Paulo lançam suplementos à imagem da imprensa alternativa". (2003, p. 125)

O Folhetim, criado e editado a partir de 1977 pelo ex-editor d'O Pasquim, Tarso de Castro, como suplemento da Folha de São Paulo, confundiu de modo proposital o conteúdo e a forma com os jornais alternativos. (KUCINSKI, 2003, p. 125).
Em 1978, Cláudio Abramo, editor da Folha de São Paulo cria um projeto e um conselho editorial, inspirados na experiência dos alternativos. (KUCINSKI, 2003, p. 126).

No entanto, a postura da grande imprensa em seguir os alternativos durou pouco. Em 1979, uma greve fez com que os donos dos jornais demitissem das redações os jornalistas intelectuais, que rejeitaram o neo-autoritarismo dos donos dos veículos de comunicação. (KUCINSKI, 2003, p. 126).



O Jornal do Brasil cortou 26% de sua redação, O Globo 20% e a Última Hora, 32%. Na Folha de S. Paulo,
a greve de 1979 contou com grande adesão, pondo em cheque a nova estrutura
interna de poder (...). Com o fracasso da greve seguiu-se uma onda de demissões
que completou o expurgo da velha guarda. (KUCINSKI, 2003, p. 127).



A última tentativa de jornalismo quase-alternativo e que culminou definitivamente no fracasso da modalidade foi quando Mino Carta cria o Jornal da República, contratando os jornalistas descontentes da Folha de S. Paulo, inclusive Cláudio Abramo. (KUCINSKI, 2003, 127). Mas a tentativa resultou em fracasso.



Se a história comprovar a morte da Utopia, é possível que o desaparecimento quase total e
repentino da imprensa alternativa tenha sido premonitório, corroborando a tese de que essa
imprensa, por estabelecer pontes entre organizações e a sociedade, antecipa
as grandes transformações. Nesse caso, por raciocínio inverso, podemos entender
o próprio surgimento da imprensa alternativa dos anos 70 como uma das últimas grandes
manifestações da Utopia no Brasil. Estimulado, sim, pelo surgimento da ditadura.
Mas com direito de existência na história. (KUCINSKI, 1998, p. 197).

 

 

Análise da Revista Bundas       

 

Como já foi dito, o jornalismo alternativo teve seu auge durante o último período militar, quando a situação do país, comparada à atual realidade, era bem diferente.

Fundar um veículo alternativo nos dias de hoje não tem o mesmo significado que teria durante o regime. Porém, se pensarmos na questão do "alternativo", pode-se supor que os atuais projetos neste campo representam uma opção de idéias não só à política governamental, mas também à grande mídia.

Em junho de 1999 surgiu no Brasil um novo veículo considerado alternativo. Ziraldo e alguns amigos que fundaram o famoso Pasquim se unem em torno de um novo projeto, a revista Bundas. Em uma entrevista ao portal Educacional (1) , Ziraldo, na época do lançamento da revista, dizia que Bundas estava surgindo para dizer que o país precisa dar mais valor a cabeça do que às nádegas, daí o nome irônico. Ziraldo afirmava que o povo estava esvaziado pelo consumismo, pelo imediatismo e que ninguém queria mais criar ou escolher o próprio caminho, mas sim comprar tudo pronto. Este seria o principal motivo pelo qual Bundas nascia: para ser alternativo ao que estava sendo "jogado" pela mídia para seus receptores, mas com a proposta de fazer isso com humor.

Em artigo publicado no site do Observatório da Imprensa(2) , o cartunista João Spacca diz o que a revista pretendia no seu lançamento:



Bundas, não se iludam com o nome, tem um compromisso ético com seus leitores.
Não é puro entretenimento. Disto se ocupam os mercadores de "tchans".
Bundas usa a estratégia clássica dos humoristas: avacalha, para dizer coisas sérias.



Spacca mostra que no primeiro momento o nome da revista causou certa desconfiança, mas a principal aposta seria no que Bundas teria para dizer. E ela surgiu pretendendo mostrar o que a mídia oficial não mostrava. O principal objetivo de Bundas era se opor à revista Caras, que, segundo Spacca, é uma mídia que só mostra o faz-de-conta dos famosos. A revista chegou a criar até o Castelo de Bundas, satirizando o castelo onde a revista Caras recebe famosos para temporadas.



Bundas, no logotipo e na proposta editorial, posiciona-se eticamente em oposição à revista
Caras. Bundas acusa: Caras é a mídia oficial e mentirosa, o Brasil faz-de-conta das novelas
da Globo, o ópio que embebeda o povo e o impede de tomar consciência de si mesmo. Ora, Caras
não faz jornalismo. Caras apenas mostra como vivem os famosos, ou como os famosos querem
que a gente pense que eles vivem. A burguesia brega de Caras, tomando sol e uísque à beira
da piscina, é denunciada pela esquerda chique de Bundas, que faz o mesmo numa esquina
chique de Ipanema (...) A simples existência de Bundas já é, em si, uma denúncia, com ou
sem glúteos na capa. Mostra, descaradamente, que a nata do humor gráfico nacional,
para poder publicar o que sabe fazer, foi obrigada a criar o seu próprio
veículo, uma verdadeira Ilha de Bundas num mar de Caras.
(3)

 

Este era o objetivo de Bundas, diante da imprensa "oficial" do país: fazer nascer um veículo sem vínculos, ou seja, uma imprensa não comprometida. Seu slogan era: "Quem mostrou a bunda em Caras jamais vai mostrar a cara em Bundas".

Bundas era semanal, e a principal maneira de expor suas idéias era através do humor. Analisamos duas edições, a de nº 64 (5 de setembro de 2000) e a de nº 76 (28 de novembro de 2000) e observamos que a publicação não trazia reportagens. Cada edição continha 50 páginas coloridas. Seus articulistas e colunistas, ou colaboradores, quase sempre eram os mesmos. Nas duas edições analisadas, nomes como Aldir Blanc, Jaguar, Fausto Wolff, Athur Poerner, Sérgio Augusto, Reynaldo Jardim, Pedro Maciel, Antônio Prata, Carlos Castelo Branco, Emir Sader, Moacir Werneck de Castro, Nataniel Jebão e Ana Bruno estão presentes. Entre os cartunistas, além de Ziraldo, havia Amorin, Zeca Marvado, Redi, Guidacci, Ricardo Leite, Mariana Massarani, Nani, Miguel Paiva, André Barroso, Aliedo, J. Bosco, Leonardo, Luís Pimentel e Jean, que colaboraram nas duas edições citadas.

As capas das duas edições trazem temas do momento em que foram publicadas. A de número 64 retratava os problemas do então técnico da seleção brasileira de futebol, Wanderley Luxemburgo, com a Receita Federal e com a negociação de jogadores desconhecidos que eram escalados para a seleção e com isso tinham seus passes valorizados. A manchete era: "No Brasil, pô, tudo é lama". A outra edição retrata o problema que a TV Globo enfrentou quando a Justiça proibiu que menores de idade trabalhassem na "novela das 8". A manchete de Bundas era: "Por uma TV sem censura"
Os editoriais eram escritos por Luís Fernando Veríssimo e traziam assuntos ligados a escândalos e corrupção no Brasil.

Bundas era dividida em artigos, colunas, seções fixas e cartuns. Os articulistas e colunistas também colaboravam nas seções fixas com comentários. A revista contava com várias seções, entre elas Bundalelê, que trazia pequenos comentários humorísticos sobre os assuntos em debate na mídia; Bundão da Semana, que elegia um destaque (nas duas edições analisadas, foram eleitos Ricardo Teixeira e o Zagallo, respectivamente); Covil do Jaguar, onde o próprio Jaguar escrevia comentários; Pixels, com frases e trechos humorísticos; Salão de Anedotas: Piadas; A Bunda da Semana; Bunda Lê Livros, entre outras.

O leitor tinha espaço na revista, na seção Cara Bundas, onde a revista publicava as cartas e e-mails enviados pelos leitores e fazia comentários.

Seus cartuns traziam, como toda revista, temas da época. Caricaturas eram feitas para gozar da situação em que determinado fato se apresentava. As edições tinham mais cartuns do que fotos. As poucas fotos que a revista trazia eram cedidas por agência de notícias nacionais (O Globo e JB). Bundas quase não tinha anunciantes. Nas duas edições analisadas havia apenas três anúncios. Na primeira edição (nº64), havia um anúncio de uma peça teatral e também de uma feira de livros que uma faculdade de São Paulo realizava. Na outra (nº76) havia somente um anúncio de um CD de piadas do Luiz Carlos Miele, que foi também o entrevistado da edição.

A revista trazia a seção Bundas Entrevista, onde Ziraldo e alguns colaboradores da revista (citados acima) faziam uma mesa redonda com uma personalidade. Nas edições analisadas, os entrevistados foram Ruy Guerra (cineasta) e Miele (classificado pela revista como "man-show").

Na internet a revista mantinha um site com cartuns diários, números passados e opiniões dos colaboradores ao vivo, porém no endereço eletrônico www.bundasnet.com.br hoje está hospedado um site de busca.

A revista trazia uma linguagem fácil de ser entendida por qualquer tipo de leitor, e sua maior atração era o humor. Seus colaboradores se posicionavam frente aos assuntos de maneira explícita, assinando embaixo dos artigos, colunas, cartuns e comentários. A revista também aceitava o uso de palavrões sem pudor algum. Bundas não informava o fato, mas o comentava. Outro slogan da revista retrata bem essa posição: "Aconteceu, Bundas comentou!"

A questão é: usando esse tipo de linguagem, e se posicionando explicitamente diante dos fatos, a revista Bundas faz jornalismo? Sim, Bundas faz jornalismo, mas o seu gênero preferencial é o opinativo.

Manuel Carlos Chaparro(4) , em artigo intitulado "Jornalismo não se divide em opinião e informação", comenta o paradigma que prevê a separação(5)



Dogmatizado o paradigma, desenvolveu-se, como valores definitivos,
conceitos que iludem os leitores, como esse de levá-los a acreditar que a paginação
diferenciada dos artigos garante notícias com informação purificada, livre de pontos de vista,
produzida pela devoção à objetividade. Como se tal fosse possível, e até desejável (...)
Trata-se de um falso paradigma, porque o jornalismo não se divide,
mas se constrói com informações e opiniões.

 


Seguindo o raciocínio de Chaparro, Bundas então seria um veículo jornalístico como qualquer outro que traga informações, não porque Bundas veiculava apenas a opinião de seus colaboradores, mas pelo fato de que outros veículos ditos "puramente" informativos também estão contaminados pela opinião dos jornalistas, desde a escolha das fontes, passando por aquilo que é mais ou menos interessante noticiar, até a organização da matéria.




Como noticiar ou deixar de noticiar algum fato sem o componente opinativo?
Por outro lado, o comentário - explícito ou crítico - será ineficaz se não
partir de fatos confiáveis, rigorosamente apurados.
(6)

 

Bundas se apóia nessa questão. Não tinha fontes específicas. Seus colaboradores escreviam a partir de fatos apurados. Conversando com pessoas confiáveis, como define Chaparro, eles opinavam embasados em seus conhecimentos sobre o assunto.

Já José Marques de Melo(7) acredita que os textos jornalísticos são divididos em informação e opinião, delimitando os textos com opiniões explícitas. Suas idéias se contrapõem as de Chaparro.

A Revista Bundas, segundo a teoria de Marques de Melo, teria tanto o Jornalismo Opinativo, em seus gêneros: editorial, comentário, artigo, coluna, caricaturas, e traria também o Jornalismo Informativo através das entrevistas. Marques de Melo retrata a informação como reprodução do real e a opinião como leitura do real. "Reproduzir o real significa descrevê-lo jornalisticamente a partir de dois parâmetros: o atual e o novo. Ler o real significa identificar o valor do atual e do novo na conjuntura que nutre e transforma os processos jornalísticos" (MARQUES apud CHAPARRO)(8)

Apesar de ter opinião e informação, Bundas é definida como alternativa. Alternativa ao governo FHC, à censura do juiz as novelas da Globo, ao esquema de vendas de jogadores do técnico Wanderley Luxemburgo, à grande mídia que muitas vezes manipula a informação, sobrepondo o direito de empresa sobre o de imprensa.

Voltando à história da Bundas, segundo artigo de Paulo Polzonoff Jr. publicado no site do Observatório da Imprensa(9), a revista teve seus dois primeiros números esgotados no mesmo dia. Paulo cita que Bundas trazia a proposta editorial de levar o leitor a uma reflexão sobre o estado hipnótico que a sociedade tinha diante das imposições do mundo globalizado.

A revista durou pouco mais de 70 edições e foi veiculada por cerca de um ano e meio, até que a Editora Pererê Ltda., que a publicava, se afundou em dívidas.

Em uma entrevista ao portal Papel Jornal(10) em março de 2003, Ziraldo comenta o fim da revista:

 


Não tinha dinheiro para poder continuar a publicar. Eu estava na esperança de que as
agências se acostumassem com o nome, e fui deixando rolar uma dívida, pensando
"daqui a pouco eu pego quatro ou cinco anúncios e equilibro isso". E quando fui
falar com o meu contador, ele disse "estamos devendo tanto", e eu disse "ih, meu Deus,
não tem como pagar isso!". E ele falou "não tem como pagar mesmo". E eu falei "mas eu não
posso, se eu parar como é que vai ser? Eu vou ser preso?" Mas não tinha como e eu parei.

 


Na mesma entrevista Ziraldo fala sobre o nome tão polêmico da revista, que foi um ponto crucial para o fim de Bundas, além da falha na administração e da falta de anunciantes para manter a revista circulando.



Parou porque o nome (Bundas) não foi assimilado pelo mercado publicitário.
Eu achava que o público assimilaria o nome Bundas em pouco tempo, como assimilou o Casseta,
que é um nome insuportável, muito mais grosseiro que Bundas (...) No meio revista,
não dá para popularizar um nome difícil, impor uma aceitação igual à televisão (...)
Bundas não foi assimilada, não conseguiu sobreviver. Em um ano e meio de Bundas
eu não consegui nenhum anúncio pago. Nenhum!

 

Por fim, Ziraldo cita que além dos anunciantes, o nome Bundas também não passou muita credibilidade:

 

Eu liguei para a agência Reuters para comprar uma foto e a moça perguntou "pra que revista é?".
Eu falei "é pra Bundas". E ela me disse "não trabalhamos com publicações desse tipo". Então eu falei
"publicações desse tipo é a puta-que-o-pariu. A senhora vá ler a revista para saber o que está falando.
A senhora é uma agência de fotografia. Que tipo de revista a senhora acha que somos?".
Ela só respondeu "não trabalhamos com publicações desse tipo, meu senhor" e
desligou o telefone na minha cara. (...) Eu fiquei devendo dinheiro, mas acreditava numa
publicação como Bundas. O diabo é que quando eu falava mal do FHC, com o nome de Bundas,
ou de qualquer outra pessoa, e diziam pra ele "olha a revista Bundas ta falando mal de você",
o cara dizia "eu tô cagando pra uma revista com esse nome"

 

Ziraldo ainda tentou lançar o Pasquim 21, outro veículo considerado alternativo, porém seu destino foi igual ao da revista Bundas. A agência Carta Maior trouxe em seu editorial no dia 25/06/2004(11) o tema do fechamento do Pasquim 21 e também sobre o provável fim da imprensa alternativa no Brasil:

 


Mais uma publicação da chamada imprensa alternativa brasileira está fechando as portas.
A expressão "chamada", aqui, tem um significado especial, pois os "alternativos", em breve, deixarão de ser
alternativos pelo simples fato de que deixarão de existir. (...)Infelizmente, cada vez mais as
portas estão se fechando para todos aqueles que sonham em construir um sistema de comunicação democrático e pluralista no Brasil. (...) a grande mídia é socorrida na hora do aperto. (...) Já os pequenos e médios... bem...
eles são pequenos e médios e seu destino têm sido o limbo ou a incorporação pelos grandes...

 

 

Considerações Finais     



Estudar o jornalismo dos anos 70 é essencial para entender a importância da imprensa nos dias de hoje. A imprensa alternativa não se calou diante da censura; pelo contrário, a cada dificuldade imposta era encontrada uma solução inteligente. É tendo conhecimento a respeito de questões como essas que podemos analisar melhor o papel que os comunicadores exercem na história do país.

 




Referências Bibliográficas          



CAPARELLI, Sérgio. Comunicação de massa, sem massa. São Paulo: Cortez Editora, 1980.
CHAPARRO, Manuel Carlos. "Jornalismo não se divide em opinião e informativo". Documento obtido via e-mail, s/d..
FESTA, Regina; SILVA, Carlos E. L (orgs.). Comunicação popular e alternativa no Brasil. São Paulo: Edições Paulinas. 1986.
KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e revolucionários: nos tempos da imprensa alternativa. São Paulo: Edusp, 2003.
KUCINSKI, Bernardo. Síndrome da antena parabólica. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 1998.
VELOSO, Maria do Socorro Furtado. "Imprensa, poder e resistência na Amazônia: A trajetória do Jornal Pessoal". Artigo apresentado ao 2º Encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo, 2004 (CD-ROM).
http://www.educacional.com.br/entrevistas/interativa/entint 0010.asp. Acesso em 20/03/2006.
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/asp30012002991.htm. Acesso em 20/03/2006.
http://www.sjsc.org.br/pj online/pj 29/entrevista.htm. Acesso em 20/03/2006.
http://www.piratininga.org.br/artigos/2004/02/pasquim21.html. Acesso em 20/03/2006.
http://www.educacional.com.br/entrevistas/interativa/entint 0010.asp. Acesso em 20/03/2006.
http://ziraldo.com/historia/biograf.htm. Acesso em 20/03/2006.
http://www.sjsc.org.br/pj online/pj 29/ entrevista.htm. Acesso em 20/03/2006.


(1) Disponível em http://www.educacional.com.br/entrevistas/interativa/entint0010.asp. Acesso em 20/03/2006.
(2) Disponível em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/asp30012002991.htm. Acesso em 20/03/2006.
(3) Idem.
(4) Chaparro, Manuel Carlos. "Jornalismo não se divide em opinião e informativo". Documento obtido via e-mail, s/d.
(5) Segundo Chaparro, o primeiro a fazer essa divisão foi o jornal inglês The Daily Courant, em 1702. Samuel Buckley, diretor do jornal, separou as notícias dos artigos para não contaminar as informações, fazendo com que os leitores refletissem e tirassem a conclusão por eles mesmos. Chaparro discorda desse paradigma que divide o jornalismo em opinião e informação.
(6) Chaparro, Manuel Carlos. "Jornalismo não se divide em opinião e informativo". Documento obtido via e-mail, s/d.
(7) Idem.
(8) Idem.
(9) Disponível em http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos/asp30012002991.htm. Acesso em 20/03/2006.
(10) Disponível em http://www.sjsc.org.br/pjonline/pj29/entrevista.htm. Acesso em 20/03/2006.
(11) Disponível em http://www.piratininga.org.br/artigos/2004/02/pasquim21.html. Acesso em 20/03/2006.




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Estudantes do Curso de Jornalismo do Isca Faculdades

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