Limeira/SP - Ano 2, nº 07

 

Jornalismo e História: caminhos que se cruzam
                
por Samira da Silva Moura*

             

Ainda no primeiro semestre do curso de Comunicação Social - Jornalismo, quando estudávamos Teoria do Jornalismo, tive a oportunidade de conhecer alguns trabalhos de pesquisadores, jornalistas e professores, entre eles, Marialva Barbosa(1) . Ao estudar seu texto, Jornalismo e História: Um Olhar e Duas Temporalidades, pude perceber outro lado do Jornalismo, o qual nunca tinha parado para analisar, ou seja, observar a notícia como fator histórico.

O tema despertou a atenção para aprofundar ainda mais no assunto, analisando o processo de seleção da notícia impressa. No início, a idéia central era analisar o processo de seleção de notícia dois jornais de Limeira, sendo eles: Gazeta de Limeira e Jornal de Limeira, mas obtive apenas resposta do Jornal de Limeira.

Para entender melhor a ligação do Jornalismo com a História, o trabalho foi dividido em duas partes: Jornalismo e Historia: Caminhos que se cruzam e a Importância dos processos de seleção da notícia. No primeiro é analisa a relação entre os dois ofícios: Jornalismo e História, o papel de serem portadores de registros da memória, já no segundo é feito uma análise do processo de seleção da notícia, qual a importância de selecionar o que vai ficar para a história e quais são os critérios de seleção utilizado pelo Jornal de Limeira.

 

1. Caminhos que se cruzam

 A atividade de seleção de notícia carrega um privilégio tanto para o historiador quanto para o jornalista. Os meios de comunicação ao selecionar o que passa no mundo, ao escolher o que vai ser ou não notícia, o que vai virar destaque ou não, estão projetando o próprio acontecimento, sendo assim, os próprios criadores do acontecimento histórico.

O ofício do jornalista é tentar registrar o instante, o novo, o imediato, já o historiador é de recuperar o instante, com a sua reinterpretação do passado para entender o hoje:

 

O presente parece ser o lugar do jornalista, assim como o passado parece ser o do historiador. Mas tanto o jornalista, como o historiador vivem o seu presente histórico e impregnados dessa realidade e das visões de um mundo do momento em que vivem construirão suas interpretações (Barbosa, Marialva, 1984, p.88).

Ambos são personagens importantes, que utilizam o poder que possui para deixar registros na memória. Uma das principais ligações dos meios de comunicação com a história é a questão de que mesmo estando posicionados no presente, na atualidade, muitas vezes se referenciam no passado, ou seja, notícias presentes que acabam tendo uma ligação com notícias passadas já registradas pelos meios de comunicação.

Segundo Ana Paula Goulart Ribeiro(2) , o significado da palavra história é a ciência que estuda os fatos do passado e os fatos históricos. Podemos então concluir que a história explica o presente pelo passado, determinando condições de possibilidade para o futuro, lembrando que esses estudos passados são muitas vezes baseados em relatos jornalísticos.

Ana Paula ainda afirma que não existe fato histórico "bruto". Ele sempre será produto de algum tipo de elaboração teórica, que permite o historiador atribuir sentidos aos fatos, através da seleção e valorização dos acontecimentos, assim tanto o historiador quanto o jornalista, constroem sua própria narrativa, inserida de subjetividade.

O Jornalismo e a História possuem caminhos que se cruzam, pois ambos carregam um certo poder de transmissão de informação, através de um jornal, livro, ou um texto. Essa condição, que aproxima o jornalista e o historiador, afeta o comportamento, a opinião e o pensamento da humanidade, no instante em que existe o registro dos fatos, ou a recuperação deles.

A pesquisadora diz que a mídia vem sendo cada vez mais utilizada pelos historiadores como fonte em suas pesquisas. Do total de trabalhos que abarcam o século XX apresentados em 1995, no Encontro Nacional de Pós-graduandos em História, cerca de 70% utilizavam meios de comunicação (sobretudo jornais) como fonte histórica.

Marialva Barbosa em seu texto (1984) diz que o jornalista é considerado o historiador do instante; o olhar para focar os fatos é de suma importância para a elaboração de uma notícia. Ocupando o cargo de intermediário da sociedade, o jornalista não é apenas um transmissor de informações, mas sim um formador de opiniões. Mas será que eles compreendem essa responsabilidade? Como será que desempenham o papel de formadores de opiniões? Afinal essas opiniões fazem parte de um fator histórico.

 

 A idéia central é que a ação do jornalista é sobretudo de natureza memoralística, já que a memória é uma operação do presente e conformadora da própria identidade. Mas ao construir uma dada memória da sociedade, na verdade, estariam configurando uma identidade com a própria profissão (Barbosa, Marialva, 1984, pág.87)

 

Segundo Robert Darnton , os repórteres escrevem para agradar os editores e os amigos de trabalho e, muitas vezes, esquecem de se preocupar com o que realmente deve ser publicado. É importante o jornalista desempenhar seu papel de maneira adequada, não jogar para o leitor o mundo como um amontoado de fatos sem ligação. O jornalista precisa contextualizar, ligar os fatos, compreender os acontecimentos sociais.

Diariamente os jornalistas têm acesso a milhares de informações e cabe a ele e ao meio de comunicação classificar o que será transmitido para o leitor, fazendo isso, selecionando temas que devem ser lembrados e outros esquecidos, é determinado o que se transformará história.

 

Afinal ao ser portadora de um discurso válido que pode ser transformado em documento para o futuro, a mídia se configura como um dos senhores da memória da sociedade (Barbosa, Marialva, 1984, pág. 88)

 

Apesar dos meios de comunicação utilizarem parâmetros específicos para selecionar os fatos que se tornarão em notícia, eles têm como função, transformar o que não é familiar em familiar, utilizando uma linguagem eficaz, compreensível. Será que eles se importam com isso?

Robert Darnton (1995) chega a citar em seu emprego no The New York Times, que os jornalistas ao escrever, tinham que se basear em uma criança de doze anos, para que as matérias ficassem mais claras e legíveis. Com os acelerados ritmos de transformação tecnológica e o elevado fluxo de notícias, os meios de comunicação, a cada dia que passa, estão reduzindo o espaço para a notícia, relatando os fatos com superficialidade, causando assim, o enfraquecimento da consciência histórica.

Por outro lado, os historiadores procuram recuperar o passado, que serve para nos encontrarmos no presente. Necessitamos dos fatores históricos para buscarmos fontes, analisar, comparar, imaginar, questionar. Segundo Dominique La Capra, é preciso considerar, que o passado têm suas próprias vozes e que o historiador faz apenas uma releitura desse passado, através de reinterpretações onde está contido o elemento ficcional do presente.

O historiador se reveste de métodos e teorias e desde então, passaram a ser tudo o que está relacionado com os meios de comunicação

 

A idéia de história resultante do primeiro nível é aquela do âmbito do senso comum. Diz respeito a consciência que os indivíduos tem do processo social no qual estão inseridos. É a chamada história viva, registrada cotidianamente nos jornais. A mensagem jornalística, tida como o registro histórico por excelência, acaba por também impor aos historiadores um modo de recordação do passado. (Ribeiro, Goulart Ana Paula, 1997, pág.05).

Uma das afinidades dos historiadores com o jornalismo são as formas da qual o passado chega até os leitores. Essas formas são transmitidas pelos historiadores e jornalistas. Ambos bebem da mesma fonte, a jornalista precisa do historiador, do fato histórico para contextualizar e relatar uma notícia; o historiador precisa se "ancorar" no Jornalismo para recueperar os cotidianos.

"Eu sabia que aquelas matérias não iriam virar mero embrulho de peixe, mas sim um registro de spoca, que serviria de base para a Historia no futuro". Esse relato de Chico Nelson, jornalista que cobriu o episódio do seqüestro do embaixador norte-americano em 1969, descreve em uma simples frase a ligação entre Jornalismo e História.

2. O processo de seleção          

 

Os meios de comunicação possuem um papel muito importante em apresentar os acontecimentos para o leitor, mantendo informados dos fatos que ocorrem na sociedade. Jornalismo na definição de Juarez Bahia (1990, pág. 09) significa apurar, reunir, selecionar e difundir idéias, acontecimentos e informações gerais com veracidade, exatidão, clareza rapidez conjugando o pensamento coma a ação. Mas qual a relação de todos esses parâmetros com a história?

Ao difundir um fato para a sociedade, o jornalista faz uma reinterpretação do acontecimento, depositando um pouco da sua singularidade pessoal e sua subjetividade ao transformar em narrativa, ou seja, a análise é feita pela sua visão. Ao escrever estamos depositando no texto um pedacinho de nós.

Tanto o veículo de comunicação como o jornalista, devem perceber a importância do processo de seleção da notícia. Essa importância está compreendia em relatar o fato como ele é, interpretar, hierarquizar o fato através de processos jornalísticos.

O meio de informação deve ter sua independência profissional, sem deixar que acordos comerciais e outros fatores interfiram na notícia a ser publicada

 

Todavia, os fatos não são expostos sem um prévio exame por parte do agente do jornalismo, a quem compete julgar da sua importância, analisá-los ou sintetizá-los, deles colher e divulgar ensinamentos enriquecê-los ou censurá-los, de modo que cheguem ao leitor devidamente interpretados. E aí está outro atributo do jornalismo: interpretação (Luiz, Beltrão, 1988, pág.45 )

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Além de informar, orientar, interpretar o jornalismo acima de tudo, procura vender notícia, vender anúncios, vender eventos, e muitas vezes submetem a relatar o acontecimento como seu cliente deseja e não para atender as necessidades do leitor. O processo de seleção da notícia deve ser feito para atender a todas as classes da sociedade, por isso, os fatos devem ser selecionados se uma maneira "global".

 

Ao ser capaz de transmitir a informação - a capacidade de saber - e ao produzir uma língua legítima, no sentido de reconhecida, os meios de comunicação passam a ser oficializado, constroem também distinção de grupos (Barbosa, Marialva, 1994, pág. 89).

 

3. Jornal de Limeira          

 

O intuito da pesquisa feita no Jornal de Limeira é para descobrir, quais são os critérios utilizados para que uma notícia seja publicada, ou seja, quais são os processos de seleção da notícia até chegar ao leitor.

O processo de seleção do Jornal de Limeira, segundo o redator-chefe, Rodrigo Piscitelli, são os critérios clássicos do Jornalismo, como interesse, atualidade, abrangência e novidade. Piscitelli pontua como define o que vai publicar:

- Os assuntos do dia obrigatoriamente devem estar na edição do dia seguinte.
- As seções fixas - O disque-jornal e a Comunidade - são analisados diariamente.
- As notícias de caráter nacional e internacional, só são publicadas se for algo forte, com impacto, como por exemplo, a morte de um líder ou troca de tiros.
- Alguns fatores como, tempo, espaço, relações comerciais e a falta de informação sobre determinado assunto podem resultar na não publicação da matéria.

Antes de publicar uma informação política, é feito uma análise de quem são os interessados na publicação e se existe um embasamento para o fato, como, documentos e versões de mais de uma pessoa. Já, as notícias policiais são avaliadas os interesses públicos e até mesmo o período em que vive, como por exemplo, o período eleitoral, que muitas vezes acabam dando outra forma a notícia ou até mesmo ocupando o seu espaço.

As informações do Jornal de Limeira chegam através de denuncias, e-mails, o disque-jornal, boletins de ocorrência e através APJ - Associação Paulista de Jornais, que enviam notícias da região. Essas informações possibilitam o início do processo de seleção.

Para Marialva Barbosa (1994), a mídia reconstrói o presente de maneira seletiva, construindo hoje a história desse presente e fixando para o futuro o que deve ser lembrado e o que precisa ser esquecido, nesta simples linhas, podemos observar a importância e a relação da notícia com a história.

Outro fator importante que não podemos desconsiderar é analisar qual é o público do Jornal de Limeira e o grau de interpretação da matéria.

Piscitelli afirma, que o Jornal de Limeira, realizou uma pesquisa com os leitores no começo de 2004 para identificar em qual classe se encontra o leitor. Segundo a pesquisa, a maioria dos leitores se concentra nas classes "B" e "D", lembrando que essa faixa representa a maior parte da população de Limeira. O jornal também possui leitores das faixas "A" e "E", sendo a classe "A", considerados os formadores de opiniões.

Em relação ao nível de compressão da matéria, o jornal não possui nenhuma pesquisa, mas ressalta que as reportagens se encontram no "light readers", ou seja, nos leitores médios, que apresentam a maior parcela da população.

O nível de compreensão das matérias publicadas no Jornal de Limeira varia de acordo com o assunto abordado. Notícias relacionadas com a justiça, política, economia, exige um grau maior de compreensão, por isso, o jornalista precisa ser o mais didático possível, pois se o leitor não entender o primeiro parágrafo, provavelmente não terminará a leitura, afirma Piscitelli.

O redator ainda cita um caso recente, aonde o jornal precisou usar o termo "empalação" em uma reportagem policial, o qual não poderia ser substituído por nenhum sinônimo, para não se tornasse agressivo ao leitor. Apesar de saber que o termo seria de difícil compreensão, o jornal não encontrou alternativa.

Os fatos que não são apurados devidamente por causa do tempo, não são publicados, geralmente ficam "engavetados", até que a apuração completa se conclua

 

Conclusão          

 

Com esse trabalho pude compreender o ofício que o jornalista carrega, em ser um selecionador da notícia. Ao selecionar o que vai ser divulgado para o leitor, o jornalista participa do processo histórico, é ele quem possui a notícia em mãos, sendo ele o selecionador do que vai se tornar história.

Tanto o historiador, quanto o jornalista, são "criadores de acontecimento histórico", por isso é necessário que o processo de seleção seja realizado de maneira correta, dentro dos critérios do jornalismo.O jornalista deve ser didático, para que o leitor possa compreender o que ele quer transmitir.

 

Referências Bibliográficas          

BAHIA, Juarez - In: Jornal, História e Técnica. São Paulo:Ed. Ática, 1990, 4ª edição, p.09.
BARBOSA, Marialva - Jornalismo e História: Um Olhar e Duas Temporalidades, p.87/91.
BARBOSA, Marialva - Jornalista, Senhores da Memória, trabalho enviado para o NP02 - Jornalismo, do IV Encontro de núcleos de pesquisa da Intercom, reproduzido no título uma citação de Jacques Lê Golf (1984).
BELTÃO, Luiz - Introdução à Filosofia do Jornalismo. São Paulo: EDUSP, 1988.
KOVACH, Bill & ROSENTIEL, Tom - Os elementos do Jornalismo. São Paulo: Geração Editorial, 2003.
DANTON, Robert - O beijo de Lamourette. São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1995, 6ª ed.
GOULART, Ribeiro Ana Paula - O Globo e a história do seu tempo. Rio de Janeiro, texto publicado em Comunicação e Política vol. IV, n.1, nova série, janeiro-abril 1997



* Estudante de Jornalismo do ISCA-Faculdades. Trabalho de conclusão da disciplina Teoria do Jornalismo, ministrada no 2º semestre do curso

(1) Barbosa, Marialva - Professora titular da UFF e do programa de Pós - Graduação em comunicação da mesma universidade
(2) Ribeiro, Goulart Ana Paula - Doutora em Comunicação e Cultura, na escola de Comunicação UFRJ e mestre pela mesma instituição

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