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Introdução A cidade de Limeira está localizada a 154 km da capital, São Paulo. A atividade econômica do município é diversificada. Empresas de alimentação, autopeças, máquinas agrícolas, papel e papelão, sucos e produtos químicos formam um pólo industrial com cerca de mil indústrias e 5 mil estabelecimentos comerciais. Até o final do século XX a cidade deteve o título de "capital da laranja". Porém, hoje o ramo que mais emprega formal e informalmente é o setor de folheados. Em meio aos setores que compõem a produção industrial, comercial, intelectual e artística local está a mídia. Em Limeira há quatro revistas em circulação, seis emissoras de rádio, três de TV, dez agências de publicidade, duas assessorias de imprensa, uma faculdade de comunicação e três sites jornalísticos . Contudo, nosso objeto de estudo é a mídia impressa. Este trabalho pretende retratar o cenário atual dos jornais que circulam em Limeira, identificando os personagens que movem a engrenagem do jornalismo local e a postura editorial dos principais veículos. Pretende-se também verificar como os proprietários de jornais gerenciam as empresas, "tendo em vista que produzir um jornal, do ponto de vista empresarial, é um desafio enorme" (QUEIROZ, 2002:7). Tais aspectos que a priori se apresentam nos mostram um vastíssimo e inexplorado campo de estudo. A quantidade de jornais em circulação nos oferece um rico campo de pesquisa. Portanto, tais produtos jornalísticos merecem ser analisados. Atualmente existe apenas um trabalho acadêmico que analisa a estrutura da imprensa local desde o surgimento do pioneiro O Limeirense, em 1783. Trata-se da monografia apresentada em setembro de 2003, no curso de especialização em Jornalismo da Unimep, pelo jornalista Antônio Cláudio Bontorim. A monografia é intitulada "De 1873 a 2003: Os 130 anos de história da imprensa e o desenvolvimento da comunicação em Limeira". O presente artigo também pretende contribuir com futuros pesquisadores que, de posse do distanciamento histórico necessário para fazer análises mais profundas, desejem entender como estava delineada a imprensa na cidade no começo do século XXI. De fevereiro a setembro de 2003 foram identificados em Limeira 12 jornais . A partir daí foi desenvolvido um cronograma de trabalho (clique aqui para baixar). Vinte por cento das entrevistas foram realizadas através de questionários enviados por e-mail aos responsáveis pelos jornais. O restante (80%) foi realizado in loco. Dentro do processo de produção do estudo verificamos que a história da imprensa de Limeira se encontra dispersa. Não há um acervo central de fácil acesso para pesquisadores, estudantes e público em geral.
Metodologia Para realizar as entrevistas com o dono ou editor-chefe de cada jornal optamos por um questionário fechado, com perguntas padronizadas dirigidas aos entrevistados. Como nosso propósito era comparar as respostas dos entrevistados, para obter melhores resultados escolhemos a entrevista padronizada ou estruturada. Eva Maria Lakatos e Marina de Andrade Marconi definem no livro "Fundamentos de metodologia científica" esta técnica: É aquela em que o entrevistador segue um roteiro previamente estabelecido; as perguntas feitas ao indivíduo são predeterminadas (...). O motivo da padronizado é obter, dos entrevistados, respostas às mesmas perguntas, permitindo "que todas elas sejam comparadas com o mesmo conjunto de perguntas, e que as diferenças devem refletir diferenças entre os respondentes e não diferenças nas perguntas (Lodi, 1974:16)". Fez-se um roteiro de perguntas cuja meta foi esclarecer o problema levantado no projeto. As questões foram dispostas de modo que cada uma delas se correlacionasse com a anterior. Levantou-se dados sobre o entrevistado para conhecer a familiaridade dele com o assunto. Estabeleceram-se contatos prévios com os donos de jornais ou editores antes de entrevistá-los. O objetivo foi evitar desencontros e perda de tempo. Cremilda Medina aborda a entrevista como uma "situação psicossocial, de complexidade indiscutível": Se for um iniciante sem preparo ou um prático profissional inconsciente da dimensão psicológica e social daquele encontro com a fonte de informação, as coisas acontecerão atabalhoadamente, com agressividade, imposição, autoritarismo. Se não houver consciência das etapas de observação mútua - namoro, usca da confiança recíproca, entrega - a matéria resultará numa versão pobre do que teria sido uma entrevista.(2001:29) O objetivo das entrevistas foi traçar o perfil editorial das publicações. Neste contexto coletaram-se informações como data de fundação, formato, periodicidade, cor, número de páginas, número de colunas, tiragem, forma de distribuição, local de impressão, proprietário e forma de contato.
1. A par de algumas reflexões teóricas Somente um estudo de análise de conteúdo das mensagens jornalísticas por meio dos diferentes gêneros (informativo, opinativo, foto-reportagem, entre outros) poderia responder se os pequenos jornais denotam ou não uma fonte alternativa de conhecimento para as comunidades da qual provêm e abrangem, apresentando-se como alternativas do ponto de vista político, intelectual e social à cultura coletiva. Cada veículo de comunicação nos revela fragmentos da realidade. Uma notícia pode ser contada de diversas maneiras (MARCONDES, 2000: 10). Basta, para isso, haver mais de um repórter presente no local. O motivo é simples: a notícia percorre um longo caminho até ser publicada. As interferências vão desde a escolha das fontes até conflito tradicional entre o departamento comercial e a redação do jornal. No livro Sobre ética e imprensa, Eugênio Bucci reflete sobre a questão, ao lembrar a comparação que Henry Luce fez das relações entre redação e setor comercial de um jornal com as relações entre Igreja e Estado no passado: O significado das palavras Igreja e Estado, que dão nome ao modelo, ajuda a entender a relação: na modernidade, o Estado se laiciza [não tem caráter religioso] e a Igreja se desobriga da gestão mundana da coisa pública. (...) Nas empresas de comunicação, a relação entre os representantes da 'igreja' e o do 'estado' deve ser mais de diálogo que de submissão. Ao jornalista, nesse equilíbrio, cabe o papel de atuar como o guardião do patrimônio maior que é a credibilidade. (2002:70) Bucci observa que o ideal para garantir uma empresa jornalística forte é uma "igreja" (redação) independente, autônoma e prestigiada. Estas características propiciariam ao estado (departamento comercial) maior facilidade para realizar negócios, já que, se o público confia no jornal, a imagem de credibilidade e de postura ética é sólida. (2002: 72) O autor arremata o assunto ao recorrer às idéias de Montesquieu sobre o equilíbrio dos três poderes na república: "Nenhum deve mandar mais que o outro, mas todos se completam e se limitam reciprocamente". (2002:70) A partir das reflexões oferecidas por Eugênio Bucci, acreditamos que a pluralidade dos órgãos de imprensa em Limeira contribui para o principal objetivo do jornalismo, que é a busca pela verdade. Cada veículo, supõe-se, parte do princípio de que tem o dever de apurar os fatos e a partir deles construir a notícia. O resultado é uma gama de informações que podem, ou não, aproximar o leitor da verdade. O desafio apresentado por Eugênio Bucci, o de equilibrar o método "igreja/estado", é maior para as empresas de comunicação do interior. Fora dos grandes centros a pressão sobre os veículos de imprensa, por parte dos anunciantes, é ainda mais incisiva e direta. No artigo intitulado "A ética como etiqueta" , o jornalista Allan de Abreu alerta para o perigo da promiscuidade entre a imprensa e o poder no interior do Brasil. Ele chama atenção para duas características: manipulação e positivação das notícias, visto que freqüentemente os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário tentam amarrar o conteúdo editorial dos jornais através da publicidade oficial. Os anúncios dos órgãos oficiais são a principal fonte de receita de muitos jornais interioranos. Abreu alerta sobre os riscos desse desvio: Essa falta de independência, obviamente, gera conseqüências do ponto de vista da fiscalização do poder pela sociedade e da própria democracia enquanto transparência nas ações de governos e elites. Uma imprensa que pouco fiscaliza e uma sociedade ignorante dos de seus governantes geram lacunas facilmente preenchíveis pela corrupção e pelo autoritarismo". O jornalista acusa as escolas de comunicação de darem pouca ou nenhuma importância ao fato. Entretanto, há autores que discordam do apocalipse iminente sobre o jornalismo do interior, alardeado por Allan de Abreu. Toni André Scharlau Vieira é um deles. De acordo com Vieira, a imprensa interiorana hoje se apresenta como uma alternativa à chamada "grande imprensa" (2002:122). Ele defende o jornalismo do interior não só como uma opção de mercado. Para o autor, o fazer jornalístico fora dos grandes eixos urbanos se apresenta como um contraponto. Vieira, contudo, também não poupa críticas aos estudantes e às instituições de ensino: Em geral, as redações [do interior] possuem menos vícios e estariam abertas a um novo tipo de raciocínio. Os estudantes e recém-formados poderiam ser mais bem preparados para influenciar e contribuir com mudanças neste cenário. (2002:125. O jornalista reforça esse argumento ao comentar uma característica interiorana, que é a proximidade entre o objeto da notícia e o jornalista: Nessas perspectivas, os profissionais que estão mais próximos dos fatos e de suas repercussões podem não só produzir trabalhos mais sintonizados com as demandas sociais, mas também promover um diálogo mais revelador e cidadão. O personagem com quem o repórter falou ontem pode cruzar com ele na rua. (2002:126) Nestes parâmetros sustenta-se a idéia inicial de que a quantidade
de jornais em Limeira é benéfica para cidade. Isso pensando
em um jornalismo ético, isento e cumpridor de sua função
social. Um jornalismo cuja intenção é ser o agente
intermediador dos processos sociais. A esse respeito, Eduardo Meditsch
assinala: Apesar da cidade de Limeira ter um número de jornais abundante, vale a pena lembrar que apenas uma parcela reduzida da sociedade pode pagar, em média, R$0,70 por um exemplar. Em virtude dessa disfunção os jornais do interior procuram desenvolver elos com as mais diversas comunidades. Procuram aumentar sua difusão para apresentar-se como vias de acesso à informação. Tal grau de proximidade gera duas situações distintas (já discutidas acima, mas que vale a pena ressaltar): a) O jornal é visto, pelos moradores, como o meio de acesso mais rápido e eficaz junto aos organismos públicos para reivindicar melhorias na qualidade de vida para seus bairros; b) O grau de proximidade entre o dono de jornal e os moradores agiliza o "julgamento" da qualidade do material. A pressão pode alterar ou inibir ações por parte do jornal. Neste contexto, as pequenas redações do interior podem criar condições para um maior diálogo com os leitores, visto que nos grandes centros diminui o diálogo e a relação com o leitor se torna burocrática. (VIEIRA, 2002:121) O jornalista Alberto Dines, crítico do jornalismo brasileiro e diretor do site Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br), considera em se livro O papel do jornal que os veículos de comunicação de massa, o rádio e a TV, não saciam a vontade de informação do público. A TV, quando surgiu, desbancou o rádio. Este por sua vez deslocou o impresso. Contudo, com o passar do tempo cada veículo de comunicação acabou encontrando o seu espaço e a melhor maneira de cumprir sua função social, que é informar. (DINES, 1972: 74). Dines analisa a função dos veículos de comunicação. Para ele o papel do rádio é amplificar e furar, "em matéria jornalística", os demais órgãos de informação. A TV optou por informar de maneira rápida e ágil, em virtude disso o noticiário é superficial. O jornalista conclui que cabe à imprensa orientar todo o processo de informação. Contextualizar a notícia, ouvir os dois lados, apresentar dados consistentes, de forma até mesmo didática. Ao lado da técnica jornalística, evoluem as tecnologias de comunicação de massa. A Internet como conhecemos hoje surgiu em meados de 1995 e englobou todas as outras mídias. Porém as redações online apareceram a partir de 1997. Nessa época dava-se muita importância à rapidez na publicação das matérias. Resultado: muitos erros de informação e erros de digitação. Conseqüência: abalo na credibilidade das empresas pontocom. Aos poucos as arestas foram aparadas. Mas ainda hoje o mercado exige de um webjornalista bom desempenho no que diz respeito à velocidade de produção de um texto, sem prejuízo da observância aos conceitos básicos do jornalismo (pesquisa, ouvir os dois lados, checagem).
2. Breve inventário da imprensa limeirense No período de desenvolvimento do presente estudo, entre fevereiro e setembro de 2003, registramos em Limeira a existência de 12 jornais. Dois deles são diários: GAZETA DE LIMEIRA e JORNAL DE LIMEIRA. Este último circula de terça a domingo, enquanto que a GAZETA, com 72 anos de existência, está nas bancas todos os dias. As outras dez publicações são: PLUG, FOLHA DO MORRO AZUL, NOTICIÁRIO DE LIMEIRA, NOTÍCIAS DO POVO, JORNAL LIMEIRA NEWS, JORNAL UNIÃO DOS BAIRROS e JORNAL DOS PASSAGEIROS. Todos são publicados mensalmente. Já a FOLHA DE LIMEIRA e JORNAL VISTA ALEGRE têm circulação semanal. Somente o jornal TRIBUNA POPULAR é publicado a cada 15 dias. A periodicidade dos jornais não-diários é irregular. E esta observação vale também para o número de páginas. O motivo é simples: vai desde a dificuldade técnica e de mão-de-obra até a falta de recursos para imprimir o jornal. Ao longo das entrevistas pudemos observar que os proprietários das pequenas empresas jornalísticas assumem diversas funções: compram, vendem, escrevem, editam e distribuem. Cuidam tanto da parte comercial como da redação dos textos. O baixo faturamento não permite a contratação de pessoas. O intervalo de publicação depende, portanto, de muitas variáveis. A maior delas é a saúde financeira dos veículos. Essa deficiência ajuda a deteriorar a credibilidade dos impressos não-diários. Para combater esse problema e dar maior legitimidade aos jornais não-diários, os proprietários da FOLHA DO MORRO AZUL (Marco Atílio de Carli), NOTICIÁRIO DE LIMEIRA (José Carlos Pinto), NOTÍCIAS DO POVO (Edimilson Dimas), LIMEIRA NEWS (Luis Carlos Mattos Silveira), UNIÃO DOS BAIRROS (Antônio Ribeiro), VISTA ALEGRE (César Rodrigues) e TRIBUNA POPULAR (Daulbert E. Gonçalves) fundaram a Associação dos Proprietários dos Jornais Alternativos de Limeira, a Aprojal, em julho de 2002. Em destaque na edição nº 108 do NOTICIÁRIO DE LIMEIRA, em outubro de 2002, um texto aponta que o objetivo da Aprojal é "representar e defender os interesses do povo e fortalecer essas empresas (os jornais)". O autor da nota alerta para a tiragem acumulada do jornal a cada 15 dias: 30 mil exemplares. Contudo, a edição nº16 do jornal NOTÍCIAS DO POVO (NP), de 31 de outubro, informa que a tiragem acumulada dos jornais sobe para 45.000 mil exemplares. No mesmo texto na primeira página do NP a Aprojal considera ter na sociedade "representatividade social, econômica e política". Em entrevista in loco José Carlos Pinto, dono do NOTICIÁRIO DE LIMEIRA, disse que uma das metas da Aprojal, com base na tiragem acumulada, seria lançar os veículos simultaneamente para captar anúncios das grandes redes de supermercados. Com isso conseguiriam drenar recursos para os jornais associados ao grupo. Pinto esclareceu ainda que se isso acontecesse haveria uma redistribuição do "bolo publicitário" em Limeira. O empresário se refere aos anúncios das concessionárias de veículos e das redes de supermercados, que são os grandes anunciantes nas páginas dos impressos diários.
2.2.2. Perfil editorial dos jornais não-diários Se fôssemos considerar as respostas sobre a postura editorial de cada jornal não-diário em Limeira, poderíamos concluir que possuem características diversas. Todavia, na prática, todos apresentam perfis parecidos. Uma das características marcantes é a ausência de páginas policiais. Os donos dos periódicos têm a mesma justificativa: a proximidade é perigosa. Na maioria dos jornais não-diários não há reportagens. Os textos publicados são um misto de entretenimento e curiosidades. Em algumas publicações, como o JORNAL DA VISTA ALEGRE, FOLHA DO MORRO AZUL (jornais de forte vínculo comunitário), TRIBUNA POPULAR e PLUG, encontram-se tendências a um jornalismo direcionado para a prestação de serviços. O rumo editorial dos impressos não-diários não é claro. Os únicos que conseguem delinear melhor a postura editorial, por uma decisão mercadológica ou social, são os jornais PLUG, cujo foco é o público jovem; FOLHA DO MORRO AZUL, que incentiva o voluntariado no bairro; NOTICIÁRIO DE LIMEIRA, com esporte amador e política; e FOLHA DE LIMEIRA, que cobre eventos sociais, como festas.
2.1.1. Plug Circula aos sábados e tem como público-alvo os jovens. Seu formato é o tablóide e a distribuição é gratuita. Há dois anos no mercado, tem tiragem de dois mil exemplares. O jornal é parceiro da GAZETA DE LIMEIRA no caderno Lazer e Companhia. O proprietário é o jornalista Marcos Paulino, assessor de imprensa da prefeitura e dono de uma empresa de comunicação empresarial. Na época da entrevista contava com a ajuda da também jornalista Rebeca Parolli. Eles optaram por fazer um jornal "alto astral", inteiramente colorido e com layout diferenciado das demais publicações. Um trecho de sua entrevista chamou nossa atenção: "Sempre que tratamos de algum assunto polêmico, procuramos ouvir pessoas que passaram por determinadas experiências e conseguiram superar. Procuramos manter um jornal alto astral, sem que isso caracterize alienação". O editor considera que há jornais bons em Limeira, "mas a grande maioria é péssima". Para Marcos Paulino, muitos jornais se tornaram um meio para atender a interesses de minorias. "Daqui a algum tempo só os bons sobreviverão. O mercado fará essa triagem", prevê. Paulino defende a regulamentação da profissão de jornalista, justificando que "como um médico mal preparado pode acabar com a vida de uma pessoa, um jornalista despreparado pode prejudicar de várias formas os personagens retratados em suas matérias". Uma das questões abordadas foi a publicidade governamental nos jornais. Sobre os anúncios, Paulino foi categórico: "O dinheiro público não deve servir para garantir a subsistência de meios de comunicação, principalmente daqueles de pouca qualidade".
2.1.2. Folha do Morro Azul Nome homônimo do bairro, a FOLHA DO MORRO AZUL completou seis anos em 2003. Marco Atílio Gimenez de Carli é o jornalista responsável. A tiragem é de 1.500 exemplares. O jornal, impresso em preto e branco, é um órgão da entidade Serviço Social São Paulo Apóstolo. Seu objetivo é incentivar o trabalho voluntário na comunidade. Atílio disse não saber interpretar a qualidade da imprensa da cidade. Comentou sobre os jornais não-diários: "Apesar de ter contato com os proprietários de jornais é difícil ler as publicações, pois circulam em regiões diferentes". O jornalista se orgulha em praticar, segundo ele, o jornalismo comunitário. E alerta: "O jornal de bairro é diferente do jornal comunitário. O jornal de bairro visa interesse pessoal [do dono do jornal], enquanto que o jornal comunitário é um benefício para a comunidade". O formato da FOLHA DO MORRO AZUL é o tablóide. Sobre a verba publicitária de órgãos públicos, ele diz que o preço pago pelo departamento de comunicações para veicular a página Notícias da Prefeitura era menor no seu jornal, em virtude do perfil comunitário.
2.1.3. Noticiário de Limeira Tem 15 anos de existência. José Carlos Pinto, dono do jornal, diz que é o idealizador do boletim Notícias da Prefeitura. Ele teve a idéia de montar uma página apenas com obras e "atitudes políticas" do prefeito. O objetivo era vender a página diretamente para o chefe do Executivo, à época, Pedro Teotoro Kühl (PSDB). Pinto não conseguiu. Teve que veicular de graça a página. O NOTICIÁRIO DE LIMEIRA e a FOLHA DE LIMEIRA são os únicos jornais não-diários que possuem assinantes. O NOTICIÁRIO tem mais de dois mil, segundo José Carlos Pinto. A capa e a página oito são coloridas. O formato é standard. Ele não é adepto do tablóide: "Jornal para mim tem de ser standard. Um jornal que quando você está lendo você se esconde atrás. Se precisar se cobrir, você tem folha para se cobrir, se precisar embrulhar alguma coisa, você embrulha... Tablóide serve, como diz a piada, para tapete de carro; dá certinho o tamanho". A linha editorial do NOTICIÁRIO DE LIMEIRA é voltada para a política e para o esporte. O jornal imprime 8.000 exemplares. Sobre a regularização da profissão de jornalista, Pinto, que diz ter cursado dois anos de jornalismo na Unimep e ter se profissionalizado no Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, é radical: "Deveria ser uma exigência da lei. Iria diminuir o número de aproveitadores. Porque hoje em dia o cara faz uma notícia, sai pegando anúncio para colocar no jornal e diz que é jornalista. Eu vejo isso aí como uma tremenda picaretagem".
2.1.4. Folha de Limeira Este jornal dedica a maior parte da suas páginas para os eventos sociais. A finalidade do jornal, quando surgiu em 1997, era primeiro "sustentar" seu dono, revelou sem rodeios Reginaldo Turati: "Eu precisava comer e beber". "Eu não tinha nem idéia, não tinha um computador. Eu não sabia escrever. Escrevo mal, mas escrevia muito pior. Então eu coloquei em vários quadrados o espaço para publicidade", conta. Hoje o jornal circula com 3.000 exemplares semanalmente, segundo o ex-vendedor de automóveis. É colorido e possui oito páginas. Turati é a favor da regulamentação da profissão de jornalista. Na entrevista disse até estar disposto a voltar para a faculdade. "Eu sou precário", comenta, com bom humor. Considera a faculdade essencial e admite ter muita dificuldade em redigir um texto e editar. "A gente busca recursos no corretor ortográfico do editor de texto". Comenta ainda sobre sua disposição em fazer o curso de jornalismo, mas somente quando estiver bem "financeiramente".
2.2. Perfil editorial dos jornais diários Ao realizar levantamento
do aproveitamento espacial dos jornais, através das categorias
de informação jornalística (MELO, 1972:139) na capa
dos impressos, constatamos que esses veículos trafegam em caminhos
opostos quanto à condução editorial. No dia 22 de abril de 2003 ocorreram dois fatos de relevância na cidade. O primeiro acontecimento foi político: a renúncia inesperada do vereador Júlio César, sem partido. O outro foi de violência: uma base policial comunitária foi assaltada na periferia. Ao comparar a localização das notícias na capa dos jornais nas edições do dia 23 de abril, o perfil editorial dos veículos impressos torna-se nítido. Manchete do dia "Vereador Júlio César renuncia"Em
seis colunas, com linha fina "Agora ladrões roubam até
polícia"Em cinco colunas, mais linha fina Neste dia (23 de abril) a GAZETA DE LIMEIRA reservou 39% (porcentagem
tirada sobre o total da superfície impressa) da capa para a editoria
de Segurança. Na edição do mesmo dia do JORNAL DE
LIMEIRA, 36,4% da capa foram reservados para a editoria de Política.
2.2.1. Gazeta de Limeira Há 72 anos no mercado, a GAZETA DE LIMEIRA é o jornal local com maior tiragem. O período de maior crescimento foi durante o Plano Cruzado, nos anos 80. O jornal imprimia 2 mil exemplares e saltou para 5 mil em menos de um ano. A GAZETA DE LIMEIRA nasceu em 1931, à beira da Revolução Constitucionalista de 1932. Hoje com mais de 100 funcionários, a empresa de Roberto Lucato investiu em programas de rádio, em parceria com a Rádio Educadora, e em um programa semanal de TV junto com a TV JORNAL. Além disso deslocou o parque gráfico para um prédio de três andares e investiu na criação de um portal para Internet. A GAZETA circula em Iracemapólis, Cordeirópolis e Engenheiro Coelho. Em média, 15 mil exemplares são impressos diariamente. A empresa é filiada ao IVC, o Instituto Verificador de Circulação, que audita regularmente a tiragem. Há 25 anos trabalhando na empresa, o diretor-presidente da GAZETA, "doutor Beto Lucato", com é conhecido no meio jornalístico, prega que os rumos editoriais do seu jornal são "informação e prestação de serviço". Lucato diz levar aos leitores desde assuntos mais simples como acidentes de trânsito até informações provenientes da Câmara de Vereadores ou da Prefeitura. Segundo o diretor-presidente, a linha editorial é revisada freqüentemente
nas reuniões. "A gente está sempre discutindo o rumo
do município. O jornal caminha para atendê-lo", afirma
Lucato. E completa: "Quem pauta a linha editorial do jornal é
o leitor; se ele está satisfeito, continua; se não está,
muda". Por isso, Roberto Lucato avalia que Limeira não "suporta" outro jornal diário. Faz essa análise com base na experiência do JORNAL POPULAR (JP). Lucato acredita que só através de uma "proposta diferente" o empreendimento pode engrenar. Aponta como causa principal do desaparecimento do JP a falta de "leitura de consumo". "Ele [o jornal] só chamou atenção em virtude do baixo preço" comenta. O empresário explica o diferencial do seu jornal: "O leitor da GAZETA tem poder aquisitivo para consumir o que é anunciado em um jornal. O dono do supermercado depende do leitor para ver o anúncio e consumir no mercado dele". Os leitores da GAZETA DE LIMEIRA pertencem às classes A, B e C. Os leitores das classes C e D entram nos finais de semana, diz Lucato, quando jornal aumenta a tiragem para 16 mil exemplares. O veículo é lido regularmente por 90 mil pessoas, segundo ele. O empresário contesta os números apresentados pela Associação dos Proprietários dos Jornais Alternativos de Limeira, Aprojal, segundo a qual os jornais associados circulam, mensalmente, com 45 mil exemplares. O empresário não dá crédito a essas afirmações. "Se juntar esses jornais alternativos não dá 2.500 exemplares", calcula. Roberto Lucato observa que a situação é ainda pior desde que a "Prefeitura parou de dar dinheiro para os jornais colocarem aquele Notícias da Prefeitura". Beto Lucato enxerga a regulamentação da profissão de jornalista de maneira empresarial. "Uma coisa é o sujeito trabalhar sem registro, de maneira irregular, outra coisa é você ser obrigado a pagar para uma pessoa que saiu da faculdade mil reais, sabendo que ela não tem competitividade dentro da redação. Isso fica complicado para o jornal", analisa. Ele acredita que o nível da mão-de-obra e o seu custo são os principais fatores para a qualidade claudicante dos jornais não-diários.
2.2.2. Jornal de Limeira O projeto embrionário do JORNAL DE LIMEIRA se deu com surgimento da revista PAUTA, em 1977. Editada pelo jornalista Djalma Martins, a revista tinha como foco principal a política. A abordagem era polêmica para a época. Quando o jornalista vendeu a revista, seu plano era lançar um jornal diário. Angariou fundos e lançou o JORNAL DE LIMEIRA em 1982, em sociedade com Agda Maria dos Santos. O jornal circula de terça a domingo e possui seis cadernos: Livre Iniciativa, Tininha, Casa Total, Jornal de Domingo, Proibido para Maiores e Jornal da TV. O impresso não atinge a classe A. Está focado no público B, C e D. O JORNAL DE LIMEIRA surgiu com uma identidade peculiar perante seu principal concorrente: a página 2, inspirada no projeto editorial da FOLHA DE S. PAULO. O objetivo foi usar o espaço como um território para juntar as várias correntes de pensamento da cidade. Para isso o JORNAL tratou de convidar colaboradores: sindicalistas, juízes, empresários, padres, políticos, estudantes. E ainda reservou um canto para a participação de leitores. Adalberto Mansur, chefe da redação, comemora essa conquista. "A circulação nossa é inferior ao concorrente, mas hoje a gente tem um link de leitura muito alto, que mostra um apego do cidadão ao veículo", avalia. Ele chefia a redação desde 1994. Teve várias passagens pela empresa. Atualmente a tiragem do impresso é de 12 mil exemplares na semana. Nos finais de semana esse número salta para 14 mil. Quando surgiu nas bancas, a principal proposta do impresso era "discutir tudo", explica Adalberto Mansur. "Foi o primeiro jornal na cidade a discutir política sem ter aquela posição oficial", ressalta. O chefe de redação reforça que a ordem no JORNAL era cobrir tudo. "Tudo é notícia", sublinhou. "A gente tem um concorrente aqui que tem 70 anos. É uma marca fortíssima, então a única forma que o JORNAL encontrou para crescer foi vir com um produto diferente" explica Mansur. O diferencial a que ele se refere é a apuração dos fatos. "Ouvir os dois lados sempre", ressalta. Essa é fórmula que o jornal usou para construir uma marca forte nestes 22 anos. "A partir do momento que você ouve o outro lado, você ganha credibilidade e aí fortalece sua marca". O JORNAL DE LIMEIRA adotou a linha de prestação de serviços para atrair mais leitores. Mansur cita o exemplo da edição do dia 21 de setembro de 2003, que traz manchete sobre moradias populares e fala sobre o déficit habitacional na cidade. O assunto rendeu e aumentou a vendagem do produto nas bancas. Outro ponto destacado pelo jornalista é a opção editorial. Em sua opinião, o JORNAL DE LIMEIRA não oferece uma cobertura superficial. A editoria de Polícia, exemplifica ele, aborda desde a falta de cadeia pública na cidade até uma política de segurança adequada ao município. Mansur considera o concorrente mais factual. O jornalista observa que a disputa de mercado não se restringe à GAZETA DE LIMEIRA, mas a todos os setores da mídia (rádio, internet etc) e até com a FOLHA DE S. PAULO, pois o jornal paulistano cobre Limeira dentro da Folha Campinas. E tem também os veículos não-diários. Adalberto Mansur considera que alguns jornais têm conteúdo em razão do tempo para trabalhar a matéria. Na sua opinião deveria haver fiscalização maior por parte do Sindicato dos Jornalistas. Mas ressalva que há jornalistas que militam há muitos anos na imprensa e que têm "mais visão do que profissionais formados". E completa: "Todo esse problema aparece sobre o manto da liberdade de expressão, porque é daí que surgem os trambiqueiros, aqueles que vendem notícias, que vendem matérias", conclui Mansur. Quanto à qualidade da imprensa, o jornalista afirma que há muitos profissionais bons, porém que estão com problema para desenvolver o trabalho. "Mas também há companheiros ganhando bem e fazendo porcaria", frisa Adalberto Mansur. Indignado, ele cobra responsabilidade social dos profissionais que militam na imprensa. "Acho que temos que lutar para mudar um pouco isso aqui", afirma. Segundo ele, a linha política do jornal é progressista. Justifica essa posição dizendo que não dá para dividir pobreza. É necessário crescer para dividir. "Era o discurso que tínhamos na época do Pedrinho [Pedro Kühl, ex-prefeito da cidade]. Em Limeira abriram 500 empresas. A pergunta era a seguinte: mas, e aí? Trouxeram novos investimentos para cidade?"
3. Conclusão 3.1 Os jornais não-diários são meios de informação e exercem influência nas comunidades. Portanto, é preocupante a condução do fazer jornalístico praticado por esses veículos do ponto de vista da qualidade e do jornalismo como forma de conhecimento. 3.2 O papel da Aprojal como associação dos jornais não-diários não é claro. Não demonstra de forma evidente quais são os objetivos do grupo do ponto de vista empresarial. 3.3 Outro ponto que nos chama atenção sobre a relação entre o governo municipal e os impressos não-diários é que o dinheiro público, de maneira sistemática, garantiu a sobrevivência de jornais em Limeira. Deste modo torna-se questionável a independência desses veículos. 3.4 A administração municipal deveria definir critérios técnicos para investir em comunicação. A mídia (TV, jornal, rádio, empresas de publicidade) é uma indústria muito peculiar. A tentação do poder público em influenciá-la é enorme, principalmente nas cidades do interior. Sabe-se que essa "parceria" é perigosa para a independência dos veículos de comunicação. 3.5 Com base na análise dos jornais acreditamos ter respondido ao problema levantado por este projeto. Ficou claro que os dois jornais diários concentram as informações jornalísticas na violência (crimes, catástrofes, delinqüência). Contudo o tema é mais freqüente na GAZETA DE LIMEIRA. No JORNAL DE LIMEIRA os assuntos políticos predominam. É curioso como, aos 72 anos vida, com maior penetração no público A e B (leitores de consumo), e eventualmente C e D nos finais de semana, a GAZETA aborde como principal tema a violência. Curioso porque quando surgiu, em 1931, o impresso era um jornal de motivação política. Hoje é o JORNAL DE LIMEIRA, com 23 anos, que aposta nessa temática.
4. Bibliografia ABREU, Allan. "A ética como etiqueta". Disponível
em http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd290520022.htm. Acesso:
setembro 2003. |
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