Limeira/SP - Ano 1, nº 02

Entender a Importância da
Teoria para o Jornalismo
                 por Rosemary Bars Mendez[1]

     A disciplina Teoria do Jornalismo, que integra a grade curricular do curso de Comunicação Social do ISCA-Faculdades, promove durante o primeiro ano do curso várias discussões sobre o Jornalismo como forma de produção de conhecimento[2], que carrega em si significados sobre a visão que o profissional tem sobre os fatos cotidianos.

     Nesta perspectiva, o jornalista atua como um observador e um interprete desta realidade e, a partir deste olhar, o jornalista representa o mundo que reporta para as páginas dos jornais. Quando faz Jornalismo registra um ponto da história da humanidade tendo como meio a  palavra, que constrói um determinado conhecimento sobre a atualidade.

     Quando o jornalista apresenta uma reportagem, uma notícia ou escreve um artigo não está apenas preocupado com o formato ou ligado a um gênero específico para expressar-se, nem atento ao espaço pré-determinado pelo editor no processo de produção da informação definido pela estrutura existente na redação em que atua.

     Ao interpretar o fato jornalístico, mesmo que inconscientemente, o profissional vê a história acontecer. Portanto, a discussão que se deve ter é saber que tipo de conhecimento e quais são as bases teóricas utilizadas para a construção diária destes conhecimentos históricos, repassados ao leitor nas edições impressas.

     No mundo contemporâneo, com as modificações e introduções de novas tecnologias que agilizam o processo de produção jornalística, a informação transforma-se no capital social que tem como fim atender as necessidades do mercado.

     Uma condição que impõe ao Jornalismo reavaliar suas raízes e suas referências clássicas para atender a demanda estabelecida pelas novas técnicas produtivas, desenvolvidas e aprimoradas a partir de um arcabouço tecnológico até então desconhecido pelo mundo da mídia.

     São novos paradigmas que estão sendo gerados neste século, tendo como ponto de partida as técnicas herdadas e consolidadas no século XX, bússolas que norteiam até hoje o caminho do profissional.

“A atualidade tem a complexidade da vida presente das pessoas. É nela  que  o Jornalismo atua e se realiza. Mais do que isso: o Jornalismo está inserido  na atualidade, faz parte dela, porque no Jornalismo se  expressam e  se realizam com sucesso os conflitos que a transformam. E esse vínculo liga o Jornalismo aos processos da vida e da cultura”. (CHAPARRO. Site: www.reescrita.jor.br)

     Há hoje, no mundo acadêmico, um intenso debate sobre os rumos do Jornalismo, uma agonia que levou os jornalistas norte-americanos Bill Kovach e Tom Rosenstiel[3] a realizarem uma pesquisa com jornalistas e pesquisadores universitários. Todos responderam a duas perguntas: se jornalismo é uma forma diferente de comunicação em relação aos outros meios e qual seria essa diferença e se há necessidade de mudanças no jornalismo praticado hoje nos Estados Unidos.

     As respostas mostram a necessidade do Jornalismo contemporâneo manter a independência dos interesses econômicos, voltando a priorizar a sua essência, pautada na investigação e no aprofundamento das notícias publicadas. A pesquisa ainda apontou ser preciso manter os nove princípios básicos do Jornalismo neste século:

1-     a primeira obrigação do Jornalismo é com a verdade;
2-     sua primeira lealdade é com os cidadãos;
3-     sua essência é a disciplina da verificação;
4-     seus praticantes precisam manter independência em relação a quem é protagonistas de seus reportagens;
5-     o Jornalismo precisa servir como um monitor independente de poder;
6-     o Jornalismo deve abrir espaço para a crítica e o compromisso público;
7-     o Jornalismo deve se esforçar para apresentar o que é significativo de forma interessante e relevante;
8-     o Jornalismo deve manter a notícia completa e proporcional;
9-     os jornalistas devem ter permissão para exercer sua consciência pessoal

     Estamos numa era em que não adianta mais apenas reportar o acontecido, é preciso primeiro entender todo o contexto, priorizando o tratamento dado à informação, que deve ser explicativa e analítica, reforçando sua capacidade e seu poder de informar.

     Os fatos diários devem ser tratados com singularidade[4], permitindo que o leitor tenha a segurança de que há organização, coesão e consistência. Um novo caminho a ser tomando pelo Jornalismo informativo impresso proporcionando um estímulo ao pensamento, propiciando o debate e a construção de um conhecimento sólido sobre os acontecimentos contemporâneos.

    O jornalista, agente principal deste processo comunicacional, não pode perder a sua sensibilidade, procurando sempre manter a percepção sobre o fato real e como abordá-lo para não se tornar apenas um transmissor de uma informação já conhecida pelo público que ouve rádio, assistiu no programa jornalístico da televisão ou viu pela Internet.

     Não pode ser apenas o profissional que cumpre o dead-line, como um trabalhador comum que segue, sem refletir, um processo contínuo e industrial para a produção da notícia[5].

     Essas questões foram levantadas a partir da prática cotidiana de quem atuou em redação de jornal impresso há quase 20 anos. Quem faz jornal diário sabe que não é fácil eleger a melhor matéria, selecionar as melhores informações a serem publicas, ficar na posição de juiz para decidir a manchete. Muitas vezes estas decisões acontecem mais pela experiência prática do que necessariamente por conhecimento teórico.

 

Conceitos          

     No desenrolar do século XX vários pesquisadores e profissionais da área conceituaram Jornalismo, cada qual levando em consideração seus próprios referenciais teóricos e seus paradigmas com base em trabalhos científicos ou na própria experiência como jornalista.

     A recuperação destes conceitos é fundamental para se entender, não apenas a definição de Jornalismo, mas a sua essência tendo como ponto de partida a construção histórica destes conceitos, apresentados por estes pensadores para descobrir os fenômenos que completam esta área do conhecimento[6].

     Muitos autores ligados à área estão se debruçando sobre este tema. Todos querendo acertar o alvo na hora de se definir Jornalismo, como uma forma de conhecimento, como a transmissão de um saber, como a mediação entre a informação e o leitor.

     São pesquisas científicas que procuram conceituar o Jornalismo reconhecendo as possíveis deficiências teóricas da área, o que representa uma ação que permite a construção do cotidiano a partir dos fatos reais, portanto sempre ligado a um saber concreto. Quando esses saberes são legitimados pelo Jornalismo, ele se torna real e verdadeiro.

     Alberto Dines, crítico observador da imprensa e do Jornalismo nosso de cada dia, defende a idéia de que quem faz o jornal são seus jornalistas, quem deve detectar as necessidades e vocações da comunidade são os jornalistas. (...) O jornalista é o representante da sociedade dentro da redação”(DINES: 1996, pág. 25).

     Jornalismo é a arte de se lidar, mexer, trabalhar com idéias. Idéias dos  jornalistas  e de especialistas, políticos ou as de cidadãos comuns. Todos têm idéias sobre o tema pautado pela redação de um jornal, algumas melhores do que outras, mas que acionam a engrenagem de se escrever a notícia do dia.

     Idéias que compõem o espaço em branco de uma página impressa de jornal ou preenchem a tela de um computador, moldando ou oferecendo mais dados para o leitor aprimorar seu conhecimento sobre o assunto que está sendo divulgado.

     Um conhecimento que hoje é atual, mas que amanhã será histórico. O Jornalismo não apenas constrói a realidade que vivemos através da palavra, mas como dá vida ao fato social que vem à tona em forma de texto e imagens.

     É certo que ele lida com fatos atuais, mas não são acontecimentos descartáveis ou efêmeros; são acontecimentos reais. E quando vira notícia, vira história. Pelo menos uma parte da história do que aconteceu naquele dia, naquele determinado lugar.

     O apoio para reforçar esta teoria sobre Jornalismo está em Eduardo Meditsch:

“(...) o Jornalismo não revela mal nem revela menos a realidade do que a ciência; ele simplesmente revela diferente. E ao revelar diferente, pode mesmo revelar aspectos da realidade que os outros modos de conhecimento não são capazes de revelar. Além desta maneira distinta de produzir conhecimento, o Jornalismo também tem uma maneira diferenciada de o reproduzir, vinculada à função de comunicação que lhe é inerente. O jornalismo não apenas reproduz o conhecimento  que ele próprio produz, reproduz também o conhecimento produzido por outras instituições sociais” (MEDITCH: 1998, pág. 28).

     O Jornalismo deve estar sempre em busca do novo, de um novo saber e portanto de um novo conhecimento sobre a sociedade em que vivemos. Um conhecimento que pode promover mudanças, na política, na economia, nas pessoas. São saberes, e não apenas informações atualizadas, que são assimiladas diariamente pelos leitores.

     O Jornalismo como notícia sobre o novo nega o que aconteceu ontem. Seu discurso é diferente do empregado pela história, que explica o presente tendo o passado como referência, para se entender o futuro. No Jornalismo, passado e futuro não existem. Há somente o presente. Entretanto é nesse ponto que História e Jornalismo se encontram.

     Quando o Jornalismo seleciona o que deve ser lembrado pela História, ele constrói pelo menos um capítulo do que deve ser reconstruído. As publicações de hoje revelam o que deve ser lembrado amanhã.  

A mensagem jornalística, enquanto registro da realidade, assume, assim, uma certa “aura” e acaba por impor aos próprios  historiadores um modo de  recordação do passado” ( RIBEIRO:1998,  pág. 06).

     Sua reflexão é de que a imprensa trabalha com o tempo linear e clínico, aparentemente diferenciados entre si, mas completamente ligados, não apenas pelos fatos selecionados para publicação, mas pelos acontecimentos cotidianos, que fazem a história de uma determinada comunidade.

     Há histórias que foram construídas pelas páginas dos jornais, lugar da história imediata (BARBOSA 1998, PÁG.87). O tempo linear, misturou-se com o cíclico, a partir da construção da narrativa em tempo presente.

     O Jornalismo vive no presente através das idéias, sejam as de seu entrevistado, de seu autor ou as da própria imprensa, enquanto empresa. E os homens de idéias vivem do Jornalismo, transformando os jornais, as revistas, num espaço aberto para debates, discussões sobre os acontecimentos diários - economia, política, ciência etc....

     Ao definir Jornalismo como uma forma de conhecimento[7], com potencialidades que ultrapassam o modo de produção, Adelmo Genro aponta que Jornalismo completa as mediações que a ciência e a arte oferecem para o conhecimento do mundo. O Jornalismo tem sua produção de conhecimento centrada no singular, permite o relacionamento do indivíduo com o gênero humano e a sociedade.

“Na percepção individual, a imediaticidade do real, o mundo enquanto fenômeno, é o ponto de partida. No jornalismo, ao contrário, a imediaticidade  é o ponto de chegada, o resultado de todo um processo técnico e racional que envolve uma reprodução simbólica. Os fenômenos são reconstruídos através das diversas linguagens possíveis ao jornalismo em cada veículo. (...)  o singular é a matéria-prima do Jornalismo, a forma pela qual se cristalizam as informações que ele produz, o critério de valor da notícia vai depender da universalidade que ela expressar. O singular, portanto, é a forma do Jornalismo e não o seu conteúdo ”. (GENRO: 2001, pág.34)

     Neste horizonte teórico, o Jornalismo apresenta o fato como se estivesse acontecendo; sendo vivenciado pelo leitor e transmite essa informação através de técnicas e de questões humanas, numa intercalação entre os dados objetivos e a avaliação subjetiva que inicia no momento da seleção e depois na produção da informação. Genro defende que os fenômenos do Jornalismo são objetivos, mas a sua essência só pode ser apreendida no relacionamento com a totalidade.

O que estamos afirmando é que existem diferentes formas, igualmente jornalísticas, de se tratar assuntos, desde a coleta dos dados, o enfoque a ser escolhido até a linguagem e a edição”.  (GENRO: 2001, pág.30)

     A idéia é de que o Jornalismo, a partir de seu conteúdo atualizado, propicia ao homem contemporâneo informações que possam integrá-lo em situações que não estão, necessariamente, associadas ao seu cotidiano, mas que pertencem ao mundo em que vive. Consegue introduzi-lo num espaço até então desconhecido e distante, ao trazer-lhe a informação sobre os acontecimentos diários.

“(...) o jornalismo é uma prática de mediação social, pois atua como mediador tanto na apresentação dos fatos para uma coletividade quanto na sua interpretação, estabelecendo relações específicas entre atores, temas, situações e contextos diversos na construção do texto noticioso. Além de levar os fatos a conhecimento público, o texto jornalístico estabelece relações de sentido para os fatos, inserindo-os num tempo e num espaço específicos que lhes dará coerência e unidade”. (FRANCISCATO: 2000, pág. 68)

     A produção do texto jornalístico significa organizar o social a partir de seu conteúdo, sistematizado e dentro da dimensão de sua atualidade e interesse, características próprias dos conceitos que sustentam a identificação da notícia.

     Porém, esta organização sofre a pressão do tempo, mecanismo decisivo na momento da seleção da notícia, um critério que pode interferir no conteúdo jornalístico.

     O Jornalismo com característica iminentemente informativo nasce nos Estados Unidos, quando o New York Times[8] decreta o fim da narrativa introduzindo uma nova forma de fazer jornalismo. A meta normativa passa a ser a busca pela objetividade, com conteúdo objetivo, sem a emoção, sem preconceitos e imparcial, primando pela neutralidade.

     Ao fazer a recuperação dos estilos jornalísticos, Sebastião Bregues faz uma composição histórica dos formatos utilizados pelo Jornalismo ao longo de sua existência, que seria o resultado de “lenta elaboração”.

     De forma estanque, divide em três fases as modificações nos textos, que estariam relacionadas com a evolução do próprio conceito de Jornalismo.

     Num primeiro momento, a partir dos meados do século XIX – entre 1900 e 1920 – está o gênero opinativo, com ênfase para o Jornalismo ideológico. Com o uso de  adjetivos no  texto, o uso do nariz de cera para começar a matéria, as reportagens longas e a falta de preocupação com o leitor.

Jornalismo doutrinário e moralizador é feito com ânimo proselitista a serviço das idéias políticas e lutas ideológicas. Trata-se de imprensa pouco informativa e cheia de comentários”. (BREGUEZ. SITE: www.saladeprensa.com.br)

     A segunda fase delimitada pelo pesquisador estaria dividida em duas etapas: a primeira de 1920 a 1945, quando há a introdução do estilo informativo e inicia-se a discussão dos manuais de redação pelas empresas de comunicação.

     O resultado seria sentido entre os anos de 1945 e 1980, após a introdução do lead nas redações, consolidando assim o estilo Informativo para o meio impresso.

Na Inglaterra e nos Estados Unidos, aparecem novas formas de redação das notícias, um novo estilo que se apóia de modo fundamental na narração ou relato de fatos e acontecimentos. O novo estilo adapta formas de expressão literária desta época para transmitir informações e notícias com eficácia e economia de palavras. Ele aparece com força e vigor que cria novas formas de expressão literária com regras próprias estabelecidas nos Manuais de Redação.  É o aparecimento da técnica do lead (guia ou orientação para o leitor) em  que o jornalista anuncia no primeiro parágrafo os cinco elementos da notícias: o quê, quem, quando, onde, como e por quê. Este estilo chegou ao Brasil na década de 50 com os primeiros Manuais de Redação adotado por  jornais como Diário Carioca e Tribuna da Imprensa. O Estilo Informativo teve, desde o seu início, três objetivos básicos em que buscava firmar-se: a naturalidade de expressões, a clareza e a concisão. É fácil imaginar-se que o aprendizado coletivo destas gerações de jornalistas em busca de maior clareza  acabou cristalizando-se nesta forma peculiar de expressão literária”.(BREGUEZ site www.saladeprensa.com.br)

     Com a concorrência dos meios para a transmissão da informação – televisão, rádio e Internet -  o Jornalismo Informativo impresso tem que ser reformulado, mostrando a informação de forma diferente dos veículos multimídia, com mais detalhes e análises, revestindo-se de profundidade no ato de informar. E esta atualização tem que ser também teórica, para indicar o rumo para o futuro do Jornalismo impresso.

     Carlos Eduardo Lins da Silva garante que o estilo americano de fazer Jornalismo está sendo seguido pelo Brasil desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

     O que não significa uma cópia ou imitação, mas uma reelaboração do modelo adotado pelos Estados Unidos. Para ele, examinar a prática jornalística brasileira significa melhorar a qualidade do que se faz aqui” (LINS DA SILVA: 1997, pág. 27).

     O trabalho do jornalista no veículo impresso exige criatividade e inovação constante para superar todas as demais tecnologias que permitem a rapidez no processo de comunicação. A atuação é complexa por lidar com a mais antiga forma de interação social, que é a palavra, ser o intelectual[9] com capacidade para entender todo o processo de produção da informação.

     O jornalista que escreve sem ter consciência de sua atuação na imprensa e na história não sabe o que significa ser jornalista. Escrever uma matéria por dia é escrever, no mínimo, uma página da história social. Zuenir Ventura parece comungar com essa idéia, ao explicar que jornalista é aquele que promove a comunhão entre o acontecimento e o leitor através de uma imersão na vida e um mergulho no real, com incursões no tempo e no espaço [10].

     Ao lembrar-se do processo de reconstrução de uma época, Ventura conta o processo narrativo e as alternativas para que um fato passado tenha sentido presente.

Os mergulhos no tempo exigiram a reconstituição de uma época através de pesquisas, leituras e depoimentos, além da memória pessoal e a dos outros. Como eram tempos vividos pelo autor, o processo de apuração se caracterizou  pelo reconhecimento e redescoberta, com o repórter revisitando o que de fato já conhecia”.(VENTURA:s/d, pág. 113)

Neste caso, O trabalho de Zuenir Ventura teve como propósito buscar a história, entender os processos que desencadearam o período reportado, para publicação numa revista semanal,  mas não deixa de ser interessante o fato de o jornalista ter-se revestido[11] de historiador para entender o quanto é importante entender a memória social na hora de se reconstruir uma época, escrevendo parte da história de um povo, entendendo o contexto social, para a apresentação do texto jornalístico.

O jornalista, seguindo a descrição de Barbosa Lima Sobrinho[12], representa o canal para a reflexão social e deve ser o condutor da informação crítica. É o intelectual que faz a ponte entre o leitor e a informação real e o intérprete da informação especializada. É o articulador de idéias e tem que ter disposição para escrever sob pressão do tempo cronometrado, sem esquecer-se de sua atuação política – porém isenta de paixões partidárias.

O jornalista recorta do real o quadro imaginário que vai compor a notícia. O profissional perde a consciência de que ao selecionar[13] o que vai ser publicado está construindo uma realidade, a partir da interpretação que faz do acontecimento. Esse é o processo que deve ser analisado, para que se possa entender como se deu essa construção da informação real e verdadeira, buscando reflexões que possam desvendar e elucidar os caminhos estabelecidos pelo mundo jornalístico.

O jornalista, ao observar o fato cotidiano interpreta, ao interpretar faz a análise sobre o comportamento e as mudanças sociais e ao escrever sobre a vida cotidiana registra para sempre aquela história, tornando-se assim o historiador do presente.

Desde a notícia mais simples que sai publicada nas páginas dos jornais, até as grandes reportagens, de investigação, de denúncia, ou utilizando recursos literários, que marcam um acontecimento, um evento, um fato. A partir de seu registro, da seleção feita na redação, o fato se transforma num acontecimento histórico.

Neste processo, é preciso reafirmar que são os jornalistas os autores responsáveis para detectar as necessidades e vocações de uma comunidade. O jornalista é o representante da sociedade dentro da redação” (DINES: 1996, pág. 23)  e como tal precisa saber articular os textos que irá construir, identificando de forma técnica as especificidades dos meios e para quem está escrevendo.

O jornalista é um produtor de conteúdo, verificando sempre o que e como deve ser publicado. Um profissional que a todo momento precisa avaliar o processo em que está inserido a construção da notícia, portanto ligado à necessidade de se estabelecer a qualidade deste conteúdo.

A concepção não pode ser apenas a de que ser jornalista é ter uma profissão regulamentada e reconhecida pelas leis trabalhistas. São intelectuais ocupando espaços estratégicos na produção das informações, com função de liderança e com poder de critica social, com a função de  edificar a cultura, que consiste em conscientizar as pessoas sobre o sentido da vida. Tal sentido, especialmente nos países em desenvolvimento, poderia significar a propagação da visão de uma sociedade melhor” ( KUNCZIK: 2001, PÁG. 58).  

 

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[1] Jornalista, professora e doutoranda da UMESP (São Paulo)
[2] A defesa de que Jornalismo é uma forma de produção de conhecimento é defendida por Eduardo Meditsch no livro O conhecimento do Jornalismo. Florianópolis. Editora da UFSC, 1992 e por Adelmo Genro Filho em  O segredo da pirâmide. Para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre, Tchê, 1987 (disponibilizado no site www.adelmo.com.br)
[3] A resenha do livro The Elements of Journalism foi escrita por Fernando Rodrigues e publicada no caderno Mais da Folha de S.Paulo, edição 2 de setembro de 2001, páginas 24 e 25.
[4] A explicação para as palavras singular e singularidade neste trabalho leva em conta o significado existente na raiz da própria expressão: a condição de manifestação única, exclusiva e irrepetível.
[5] O Manual da Folha de São Paulo define a importância da notícia em seis critérios básicos, que devem ser seguidos pelos jornalistas: 1- ineditismo; 2- improbabilidade; 3- Interesse público; 4- Apelo (curiosidade); 5- Empatia e 6- Proximidade. – página 43.
[6] A pesquisa realizada por Otto Groth, alemão pioneiro no estudo sobre Jornalismo a partir de 1910 até 1965, é referência para várias pesquisas sobre a área. Ele escreveu seis volumes sobre a ciência do Jornalismo, tendo como teoria que Jornalismo é uma produção cultural com base na realidade, no cotidiano e que sua idéia principal é comunicar todos os acontecimentos em todos os ramos da cultura e da vida à sociedade, permitindo ao jornalista ser um mediador desta realidade. Em seu trabalho, ele aponta as quatro características do Jornalismo, que formam a sua dimensão estrutural, respeitadas até hoje, que são a periodicidade, universalidade, atualidade e difusão. Suas reflexões são recuperadas por José Marques de Melo no livro A opinião do Jornalismo Brasileiro. RJ. Ed. Vozes, 1994 e por Adelmo Genro Filho, no livro O segredo da Pirâmide – para uma teoria marxista do Jornalismo, disponível no site www.adelmo.com.br  
[7] Adelmo Genro define a diferencia entre o conhecimento produzido pelo Jornalismo com o científico, apontado ser diferentes porque o Jornalismo tem o contato com a realidade, através de relações objetivas com o evento dentro de uma totalidade social e pelas relações e significações no ato da produção,  priorizando o fato singular, a matéria-prima do Jornalismo, sendo que o valor da notícia vai depender da sua universalidade. Portando, o singular é a forma do Jornalismo e não o seu conteúdo.  
[8] Michael Kunczik aponta que o New York Times simbolizou, no final do século XIX, o modelo do jornalismo informativo e em 1920 é decretado que a capacidade jornalística deveria ser o testemunho objetivo. Conceitos de Jornalismo – norte e sul Tradução de Rafael Varela Jr. São Paulo. Edusp. 2ª edição, páginas 225 a 227  
[9] Antonio Gramsci define que intelectual é o profissional que conhece o funcionamento da máquina e o jornalista neste processo é o profissional que pratica o Jornalismo “não somente para satisfazer todas as necessidades de seu público, mas pretende também criar e desenvolver estas necessidades e, consequentemente, em certo sentido, criar seu público e ampliar progressivamente sua área”. In: Os intelectuais e a organização da Cultura. pág. 161
[10] Zuenir Ventura explica a importância da reportagem na reconstrução de uma época, de um período ou de um fato. No caso, ele se lembra de como reconstituiu, para a revista Veja, sobre a década de 60, uma história contada em doze edições, que depois transformou-se em livro. O trabalho recorreu à história linear exigida pela técnica de redação, sem se esquecer do tempo cíclico ao característico de quem recupera a memória de uma época. (Vida de repórter. In: Jornalismo é.... - coordenação de Numércio Nogueira. ABI. RJ. s/d.).
[11] Utilizo a palavra “revestido” porque, como já disse no início do texto, acredito no papel, na atuação, no desempenho do jornalista como historiador de uma época, portando ele veste diariamente os trajes do historiador, mesmo que não tenha consciência dessa sua atuação histórica.
[12] A definição de jornalista de Barbosa Lima Sobrinho está no livro O problema da Imprensa reeditado pela Editora da USP em 1997 – 3ª edição
[13] O significado da palavra selecionar neste texto tem o mesmo dado por Marialva Barbosa em seu texto Senhores da Memória. In: Revista Brasileira de Comunicação - Intercom, SP. Vol. XVIII, nº julho e dezembro de 1995, páginas 84 a 101, apresentando que o jornalista seleciona e hierarquiza a informação, o que deve sempre ser lembrado pela história, deixando muitas informações nas zonas de silêncio
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