O eclipse total da Lua na noite de 8 para 9 de novembro de 2003

PAULO SERGIO BRETONES
Professor de Astronomia do curso de Geografia e
do Observatório do Morro Azul do ISCA Faculdades de Limeira


Na noite de 8 para 9 de novembro, observadores de várias partes do mundo terão a oportunidade de observar um eclipse total da Lua.
O eclipse será visível no Brasil, leste da América do Norte, América Central e América do Sul (exceto a extremidade sul), Antártica, Europa, Ásia ocidental, quase toda a África (exceto uma estreita faixa da costa oriental), oceano Atlântico, oeste do Oceano Índico e leste do Pacífico.
Denomina-se eclipse ao obscurecimento parcial ou total de um corpo celeste em virtude da interposição de um outro. A palavra eclipse vem do grego ekleipsis, que significa abandono, desmaio, desaparecimento.
É uma das raras chances de observar-se um espetáculo tão belo da natureza. Podem ocorrer, anualmente, no mínimo 2 eclipses sendo os 2 solares e no máximo 7, sendo pelo menos 2 lunares. Podem ocorrer 5 solares e 2 lunares ou 4 solares e 3 lunares. Embora os eclipses solares ocorram em maior número, vemos com mais freqüência os lunares, pelo fato de os últimos serem observados em áreas consideravelmente superiores à metade da Terra, enquanto que os solares só podem ser vistos em uma área muito limitada com 260 Km de largura e de 4800 a 6400 Km de extensão.
A cada 18 anos 11 dias e 8 horas os eclipses se reproduzem na mesma seqüência, é o chamado período de Saros, já conhecido pelos caldeus. Mas só depois de 3 Saros será possível a um observador contemplar, no mesmo lugar, o mesmo eclipse em circunstâncias praticamente idênticas.
Os eclipses solares ocorrem quando a Lua interpõe-se entre o Sol e a Terra, isto é, quando está em fase de Lua nova.
Os eclipses lunares ocorrem quando a Lua penetra no cone de sombra da Terra, o que só pode acontecer na fase de Lua cheia pelo seguinte:
A Terra gira ao redor do Sol num plano. Por exemplo, supondo que o Sol esteja no centro da face superior de uma mesa, a Terra se move em torno do Sol no nível desta superfície. Ao mesmo tempo a Lua gira em torno da Terra, mas o plano de órbita lunar é inclinado um pouco mais de 5º em relação à face da mesa.
Embora a Terra projete sempre a sua sombra não a percebemos porque geralmente a Lua passa acima ou abaixo da sombra.
Assim, quando a Lua cruza o plano da órbita da Terra, ou seja, passa por um nodo, e além disso o Sol, a Lua e a Terra ficam alinhados, ocorre um eclipse lunar.


Planos das órbitas da Terra e da Lua


A sombra da Terra projetada no espaço se estende em forma cônica por cerca de 1.383.700 Km. À distância de aproximadamente 384.000 Km, onde está a Lua, o diâmetro da sombra tem cerca de 9.170 Km.
Além de uma parte escura, chamada umbra ou apenas sombra, a sombra da Terra tem uma parte cinzenta denominada penumbra. Mas é a sombra que dá o efeito de beleza ao fenômeno, pois a penumbra na maioria das vezes é imperceptível.


Corte Longitudinal do fenômeno


Na noite de 8 para 9 de novembro, no horário de verão, às 21h32min do dia 8, a Lua cheia começará a "mergulhar" na sombra da Terra, assim, uma linha divisória surge como um entalhe no bordo lunar e penetrando cada vez mais até que às 23h06min a Lua estará toda coberta pela sombra de nosso planeta. Isso vai até às 23h30min quando começará a sair da sombra até que às 01h04min sairá por completo e estará novamente toda iluminada pelo Sol. Desta forma, o meio do eclipse ocorrerá às 23h18min. Para outras localidades, fora do horário de verão, veja a tabela no final do artigo.


Corte Transversal do fenômeno


Os eclipses lunares já foram mais importantes para a pesquisa astronômica. Eles forneceram a primeira prova de que a Terra é redonda, foram utilizados no estudo da alta atmosfera do nosso planeta, no estudo da rotação da Terra, no tamanho e distância do nosso satélite além de variações em seu movimento.
Além disso, os eclipses podem contribuir na determinação de datas que se deram em tempos remotos. Os astrônomos podem fazer o levantamento com grande precisão de quando ocorreram estas datas.
Sabe-se, por exemplo, que Josephus, antigo historiador, escreveu que houve um eclipse lunar na noite que precedeu a morte do rei Herodes. Esse eclipse ajudou os historiadores a determinar a data de sua morte e assim conhecer o começo da Era Cristã.
Quando a Lua estiver toda imersa na sombra poderá tomar uma cor de cobre, isto é, avermelhada, pelo seguinte: A luz do Sol atinge a Terra e passa pela atmosfera. Os componentes da luz branca, que produzem as cores vermelha e laranja, espalham-se pelo ar cobrindo o céu com as cores do Sol no alvorecer e no crepúsculo. A refração transforma essas cores em sombra, por isso a Lua pode ficar avermelhada.


Aspectos da Lua durante um eclipse.


Aspecto da Lua, no máximo do eclipse.


Outro exemplo histórico relacionado à coloração da Lua durante um eclipse, está no relato de Pôncio Pilatos, no Novo Testamento. Segundo ele, a “Lua apareceu como da cor do sangue” na crucificação de Jesus Cristo. Atualmente o avermelhamento da Lua é devido à poluição da atmosfera. Na época, a cor de sangue referida por Pilatos, o que contaminava a atmosfera, e pode acontecer até hoje, é a emissão de gases e poeiras pela atividade vulcânica. Para os astrônomos ingleses Colin J. Humphreys e W.G. Waddington, da Universidade de Oxford, em artigo publicado na revista Nature, no eclipse da Lua no dia da crucificação, a Lua surgiu no horizonte de Jerusalém com cerca de 20% do seu disco encoberto. Ela poderia estar rosada pela poluição vulcânica.
O aspecto da Lua durante um eclipse total pode ser relacionado com a sua trajetória pela umbra, água, nuvens e partículas sólidas da atmosfera.
Além disso, segundo estudos do astrônomo francês Danjon e do tcheco Link, há uma relação entre a luminosidade da lua eclipsada e a atividade solar. Dessa forma, nos dois anos que se seguem a um mínimo de atividade solar, a Lua eclipsada é mais escura e menos colorida. Como o Sol passou em 2000 por um pico no seu ciclo de atividade, poderemos estudar, três anos depois, qual será seu aspecto.
Também há uma história sobre o eclipse total do Lua observado em 1504. O navegador Cristóvão Colombo com seu exército morreria de fome porque não obtinha alimentos e água junto aos indígenas para sua viagem de volta. Soube da ocorrência do eclipse dias antes e na noite do fenômeno disse aos caraíbas que iria tirar a luz da Lua se não fornecessem o que necessitava. Assim que se iniciou o eclipse os indígenas ficaram apavorados e atenderam ao solicitado pelo grande navegador.


Eclipse lunar de 1504 observado por Colombo na Jamaica (New York Public Library)


Neste ano temos ao todo 4 eclipses sendo 2 eclipses totais da Lua e 2 eclipses do Sol: um total e outro anular. Destes, apenas os eclipses lunares são visíveis no Brasil. Um deles já ocorreu em maio, o próximo, como mostra a carta geral do eclipse, também será visível no Brasil.


Carta geral do eclipse


As observações do eclipse total da Lua podem ser realizadas com binóculos, lunetas e telescópios de fraco aumento.
Para fotografar o eclipse, são indicados filme de sensibilidade média ou rápida (400 ASA) e aconselha-se um tempo de exposição instantâneo (1/25 de segundo) e de alguns segundos durante a fase da totalidade.
Para obter na mesma foto a seqüência do eclipse, deve-se fazer um ensaio na véspera para procurar o melhor local. É importante conhecer a trajetória aparente da Lua e utilizar mais de uma abertura e velocidade de disparo para garantir fotos de boa qualidade. Com a câmara fixa, apoiada em tripé, deve-se disparar manualmente (velocidade B) em intervalos de três, cinco minutos ou mais, sem avançar o filme.
Usando-se teleobjetivas, como o campo é limitado, é possível obter imagens maiores da Lua e, portanto, nem sempre é possível fotografar, no mesmo quadro, toda a seqüência.
Vale a pena ficar acordado e reunir a turma para observar esse raro fenômeno. Enquanto que o eclipse reúne no céu o Sol e a Lua, as pessoas se reúnem aqui em baixo para observá-los e ver esse belo espetáculo da natureza.
Mas, este fenômeno é mais bonito de ser visto a olho nu. É um lindo espetáculo cujo único esforço necessário, se o céu não estiver nublado, é o de levantar a cabeça e deixar-se maravilhar pela sua beleza. E como ocorre na noite de sábado para domingo, pode ser um bom programa para fazer, de preferência, acompanhado. Melhor ainda ao som do bolero romântico Eclipse de Luna ou outra música qualquer.
O Observatório do Morro Azul estará aberto, com entrada franca, no sábado, dia 8 a partir das 20h30. Será realizada uma palestra para explicação do eclipse e observações com o uso dos telescópios. O Observatório está aberto a escolas e grupos em outras datas. As visitas devem ser agendadas pelo telefone 3404-4729.


Tabela de horários do eclipse fora do horário de verão
Fenômeno  Horário - Tempo Universal Horário - fora do Horário de Verão *
Entrada na sombra Dia 8 – 23h32min Dia 8 – 20h32min
Início do eclipse total Dia 9 – 01h06min Dia 8 – 22h06min
Meio do eclipse Dia 9 – 01h18min Dia 8 – 22h18min
Fim do eclipse total Dia 9 – 01h30min Dia 8 – 22h30min
Saída da sombra Dia 9 – 03h04min Dia 9 – 00h04min

 (*) No Brasil, para localidades nas regiões Norte e Nordeste e o estado do Mato Grosso.

Bibliografia:

BOCZKO, Roberto. Conceitos de Astronomia. São Paulo: Edgard Blücher Ltda, 1984. 429p.

BRETONES, P.S. Os Segredos do Sistema Solar. São Paulo: Atual Editora, 1993. 44p.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Anuário de Astronomia 2003. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003. 378p.

MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Eclipses, da superstição à previsão matemática. São Leopoldo, Ed. Unisinos, 1993. 239p.

OBSERVATÓRIO NACIONAL. Anuário do Observatório Nacional. Rio de Janeiro, 2002.

http://sunearth.gsfc.nasa.gov/eclipse/LEplot/LEplot2001/LE2003Nov09T.gif

Dicas para fotografar o eclipse:

http://www.mreclipse.com/LEphoto/LEphoto.html

http://www.kappacrucis.com.uy/eclipse_de_luna.htm