Eclipse Total da Lua na noite de 15 para 16 de maio de 2003
PAULO SERGIO BRETONES
Professor de Astronomia do curso de Geografia e
do Observatório do Morro Azul do ISCA Faculdades de Limeira
Na noite de 15 para 16 de maio, observadores de várias partes do mundo terão a oportunidade de observar um eclipse total da Lua.
O eclipse será visível em todo o Brasil, Américas, Europa, Groenlândia, África, Oriente Médio ocidental, Oceano Atlântico, partes do Oceano Pacífico e Oceano Índico ocidental.
Denomina-se eclipse ao obscurecimento parcial ou total de um corpo celeste em virtude da interposição de um outro. A palavra eclipse vem do grego ekleipsis, que significa abandono, desmaio, desaparecimento.
É uma das raras chances de observar-se um espetáculo tão belo da natureza. Podem ocorrer, anualmente, no mínimo 2 eclipses sendo os 2 solares e no máximo 7, sendo pelo menos 2 lunares. Podem ocorrer 5 solares e 2 lunares ou 4 solares e 3 lunares. Embora os eclipses solares ocorram em maior número, vemos com mais freqüência os lunares, pelo fato de os últimos serem observados em áreas consideravelmente superiores à metade da Terra, enquanto que os solares só podem ser vistos em uma área muito limitada com 260 Km de largura e de 4800 a 6400 Km de extensão.
A cada 18 anos 11 dias e 8 horas os eclipses se reproduzem na mesma seqüência, é o chamado período de Saros, já conhecido pelos caldeus. Mas só depois de 3 Saros será possível a um observador contemplar, no mesmo lugar, o mesmo eclipse em circunstâncias praticamente idênticas.
Os eclipses solares ocorrem quando a Lua interpõe-se entre o Sol e a Terra, isto é, quando está em fase de Lua nova.
Os eclipses lunares ocorrem quando a Lua penetra no cone de sombra da Terra, o que só pode acontecer na fase de Lua cheia pelo seguinte:
A Terra gira ao redor do Sol num plano. Por exemplo, supondo que o Sol esteja no centro da face superior de uma mesa, a Terra se move em torno do Sol no nível desta superfície. Ao mesmo tempo a Lua gira em torno da Terra, mas o plano de órbita lunar é inclinado um pouco mais de 5º em relação à face da mesa.
Embora a Terra projete sempre a sua sombra não a percebemos porque geralmente a Lua passa acima ou abaixo da sombra.
Assim, quando a Lua cruza o plano da órbita da Terra, ou seja, passa por um nodo, e além disso o Sol, a Lua e a Terra ficam alinhados, ocorre um eclipse lunar.

Figura 1: Planos das órbitas da Terra e da Lua
A sombra da Terra projetada no espaço se estende em forma cônica por cerca de 1.383.700 Km. À distância de aproximadamente 384.000 Km, onde está a Lua, o diâmetro da sombra tem cerca de 9.170 Km.
Além de uma parte escura, chamada umbra ou apenas sombra, a sombra da Terra tem uma parte cinzenta denominada penumbra. Mas é a sombra que dá o efeito de beleza ao fenômeno, pois a penumbra na maioria das vezes é imperceptível.

Figura 2: Corte Longitudinal do fenômeno
Na noite de 15 para 16 de maio, às 23h02min do dia 15, a Lua cheia começará a "mergulhar" na sombra da Terra, assim, uma linha divisória surge como um entalhe no bordo lunar e penetrando cada vez mais até que às 00h13min a Lua estará toda coberta pela sombra de nosso planeta. Isso vai até às 01h06min quando começará a sair da sombra até que às 02h17min sairá por completo e estará novamente toda iluminada pelo Sol. Desta forma, o meio do eclipse ocorrerá às 00h40min.

Figura 3: Corte Transversal do fenômeno
Quando a Lua estiver toda imersa na sombra poderá tomar uma cor de cobre, isto é, avermelhada, pelo seguinte:
A luz do Sol atinge a Terra e passa pela atmosfera. Os componentes da luz branca, que produzem as cores vermelha e laranja, espalham-se pelo ar cobrindo o céu com as cores do Sol no alvorecer e no crepúsculo. A refração transforma essas cores em sombra, por isso a Lua pode ficar avermelhada.
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Figura 4: Aspectos da Lua durante um eclipse.

Figura 5: Aspecto da Lua, no máximo do eclipse.
Os eclipses lunares já foram mais importantes para a pesquisa astronômica. Estes forneceram a primeira prova de que a Terra é redonda, foram utilizados no estudo da alta atmosfera do nosso planeta, no estudo da rotação da Terra, no tamanho e distância do nosso satélite além de variações em seu movimento.
Além disso, os eclipses podem contribuir na determinação de datas que se deram em tempos remotos. Os astrônomos podem fazer o levantamento com grande precisão de quando ocorreram estas datas.
Sabe-se, por exemplo, que Josephus, antigo historiador, escreveu que houve um eclipse lunar na noite que precedeu a morte do rei Herodes. Esse eclipse ajudou os historiadores a determinar a data de sua morte e assim conhecer o começo da Era Cristã.
Outro exemplo foi o escurecimento do céu na crucificação de Jesus Cristo. Conforme o relato de Pôncio Pilatos, no Novo Testamento, a “Lua apareceu como da cor do sangue”. Atualmente o avermelhamento da Lua é devido à poluição da atmosfera. Na época, a cor de sangue referida por Pilatos, o que contaminava a atmosfera, e pode acontecer até hoje, é a emissão de gases e poeiras pela atividade vulcânica. Para os astrônomos ingleses Colin J. Humphreys e W.G. Waddington, da Universidade de Oxford, em artigo publicado na revista Nature, no eclipse da Lua no dia da crucificação, a Lua surgiu no horizonte de Jerusalém com cerca de 20% do seu disco encoberto. Ela poderia estar rosada pela poluição vulcânica.
Também há uma história sobre o eclipse total do Lua observado em 1504. O navegador Cristóvão Colombo com seu exército morreria de fome porque não obtinha alimentos e água junto aos indígenas para sua viagem de volta. Soube da ocorrência do eclipse dias antes e na noite do fenômeno disse aos caraíbas que iria tirar a luz da Lua se não fornecessem o que necessitava. Assim que se iniciou o eclipse os indígenas ficaram apavorados e atenderam ao solicitado pelo grande navegador.
Neste ano temos ao todo 4 eclipses sendo 2 eclipses totais da Lua e 2 eclipses do Sol: um total e outro anular.
De todos esses, os eclipses totais da Lua serão visíveis no Brasil, como mostra a carta geral do eclipse, abaixo. O outro eclipse da Lua ocorrerá na noite de 8 para 9 de novembro.

Figura 6: Carta geral do eclipse
As observações do eclipse total da Lua podem ser realizadas com binóculos, lunetas e telescópios de fraco aumento.
Para fotografar o eclipse, são indicados filmes de sensibilidade média ou rápida (400 ASA) e aconselha-se um tempo de exposição instantâneo (1/25 de segundo).
Para obter na mesma foto a seqüência do eclipse, deve-se fazer um ensaio na véspera para procurar o melhor local. É importante conhecer a trajetória aparente da Lua e utilizar mais de uma abertura e velocidade de disparo para garantir fotos de boa qualidade. Com a câmara fixa, apoiada em tripé, deve-se disparar manualmente (velocidade B) em intervalos de três, cinco minutos ou mais, sem avançar o filme.
Usando-se teleobjetivas, como o campo é limitado, é possível obter imagens maiores da Lua e, portanto, nem sempre é possível fotografar, no mesmo quadro, toda a seqüência.
Vale a pena ficar acordado e reunir a turma para observarmos esse raro fenômeno. Enquanto que o eclipse reúne no céu o Sol e a Lua, as pessoas se reúnem aqui em baixo para observá-los e ver esse belo espetáculo da natureza.
Mas, vale lembrar, este fenômeno é mais bonito de ser visto a olho nu. É um lindo espetáculo cujo único esforço necessário, se o céu não estiver nublado, é o de levantar a cabeça e deixar-se maravilhar pela beleza deste fenômeno celeste.
Bibliografia:
BOCZKO, Roberto. Conceitos de Astronomia. São Paulo: Edgard Blücher Ltda, 1984. 429p.
BRETONES, P.S. Os Segredos do Sistema Solar. São Paulo: Atual Editora, 1993. 44p.
MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas. Eclipses, da superstição à previsão matemática. São Leopoldo, Ed. Unisinos, 1993. 239p.
http://sunearth.gsfc.nasa.gov/eclipse/OH/OH2003.html
http://sunearth.gsfc.nasa.gov/eclipse/LEplot/LEplot2001/LE2003May16T.gif
www.fisica.edu.uy/astronomia/kappacrucis